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Memórias de uma queixa...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 20.3.09

Tudo ia muito bem (obrigada!) no planeta do sedentarismo, país do ócio criativo, cidade da preguiça organizada. Até que uma reportagem capa da revista IstoÉ, intitulada "Os benefícios de correr" (ei... tudo na vida tem os seus prós... E os seus contras... unf...) abalaria o seu mundinho perfeito. Ela sabia que não estava ficando mais nova com o passar do tempo. Percebeu isso com o surgimento, de uma hora para a outra, de doenças esquisitas, metidas a besta com seus nomes pomposos. Algumas, inclusive, eram as preferidas dos médicos quando nenhum exame acusava nada; aliás, em sua maioria, os doutores tinham uma única certeza: se não é a moléstia X, nem a Y, nem a Z, então, bom, "só pode" ser a X1S67-A (de onde ela veio, e o que e pior, para onde vai, entretanto, é outra história cheia de suposições). Não podia mais tomar leite porque sofria de intolerância a lactose (mas eu mamei no peito, uai...). Só que o café preto tinha a tendência de irritar o intestino - SII - (será que intestino tem tpm?). Subir escada deixou de ser uma brincadeira prazerosa para transformar-se em absurda tortura (os vizinhos sempre sabiam quando ela chegava em casa, pois vinha gemendo e reclamando desde o primeiro degrau, até o último). Enfim, a realidade não estava sendo nem um pouco piedosa com ela, e o espelho não negava: celulite na floresta amazônica e arredores, gordurinha no planalto central, estrias no nordeste e sudeste, enfim, coisas sobrando em todo território nacional...
Ela sabia também que àquela famigerada reportagem colocaria em xeque todas as desculpas esfarrapadas até então apresentadas ao seu amado namorado para evitar qualquer tipo de caminhada:

- Amor, vamos caminhar hoje?
- Ahhh, não vai dar porque tenho que lavar roupa.
- Ué, lava depois que a gente voltar...
- Ahhh, adoraria. Mas é uma mancha de café misturada com a seiva de jabuticada silvestre, e tem que ser lavada exatamente às 18h38m, porque a conjuntura da linha do sol pegando no solado da lua favorece o esbranquiçamento do tecido feito de algodão puro produzido no leste da Malásia...

- Amor, a roupa está lavada... vamos caminhar hoje?
- Ahhh, não vai dar porque meu pai pode ligar.
- Ué, vai ficar registrado no bina, depois você retorna...
- Ahhh, adoraria. Mas meu pai está passando por uma fase pós-terceira-idade extremamente caótica-sensível, e qualquer tentativa de falar comigo sem sucesso pode gerar uma crise exacerbada de rejeição acelerada pela ausência da minha presença na vida paterno-fetal...

Enfim, ela até tentou esconder a revista debaixo de uma pilha de inutilidades. Mas, não adiantou muito... o radar pró-saúde de seu namorado captou a palavra "saudável" com a mesma eficiência que uma mulher na TPM farejaria uma barra de chocolate disfarçada de laxante natural a milhas de distância.
Ele, na mais profunda inocência, perguntou:
- Você leu a reportagem amor?
- Anrã. Achei meio superficial, nem vale a pena perder seu... (tarde demais, ele já estava devorando a bendita)... tempo.... Aff...
- Superficial? Você achou superficial as 10 páginas seguidas de estudos, testemunhos, fotos, documentários, blá.. blá... blá... (ela nem ouvia mais nada... sabia que tinha perdido a batalha... intuia que a guerra também estava seriamente comprometida)

- E então amor, depois de ler esta matéria, vamos caminhar amanhã?
- Hummm... (bom, seria uma boa oportunidade para eu estrear aquela bermudinha azul, que combina com o tênis e a bijuteria que ganhei no natal...). Ahhh, claro amorzinho, saúde em primeiro lugar (será que tenho uma meia para combinar?).

E o amanhã, finalmente chega (e a porcaria da previsão do tempo estava errada, para variar... cadê a chuva??? e a frente fria???). Ela se arruma com esmero, e, contagiada pelo visual malhação, acompanha o namorado toda animada. Ele, preocupado, comenta que a corrente que ela estava usando, poderia atrapalhar na hora de correr. Ao que ela responde, solícita: - Que nada amor! (aff, me conhecendo, no ritmo lerdo que vou andar, a corrente não vai nem sair do lugar... poderia muito bem estar usando um cocar que também não iria atrapalhar meu... "ritmo"). E chegam no parque (caramba, de longe parece menor essa pista... afff).
E começa a maratona...

Volta 1:
- Aiiiiiiiiiiiiiiiiii meu amor, meu lindo, meu tesouro... uhuuuu... Foi uma benção essa reportagem chegar nas nossas mãos. Porque a vida é linda, o amor é belo, você me encanta, e o universo conspira para que os sonhos se realizem... e que delícia caminhar entre esses cachorrinhos lindos que brincam por aqui...
Daqui a pouco tempo vou estar correndo igual àquela moça loira simpática de agasalho vermelho... nooosssaaa, ela correndo daquele jeito e ainda tem fôlego para distribuir sorrisos... (e embalada pela liberação momentânea de endorfina por todos os seus poros, ela seguia saltitante pela pista de corrida, saudando o céu, o sol, os pássaros, o mar, enfim, a vida ma-ra-vi-lho-sa que se desenrolava ao seu redor... E ela inspirava o ar puro por seus pulmões virgens de exercícios, deixando as narinas absorverem aquele nectar dos deuses. Abria os braços de forma a poder abraçar todo aquele cenário benfazejo).
Volta 2: - Aiiiiiiiiiiiiiiiiii meu amor, meu lindo... uhuuu... Que coisa gostosinha que é essa tal caminhada. É só não andar muito rápido e respirar ao mesmo tempo. Olha só... a loirinha sorriu novamente... puxa vida,
que gente de bem com a vida (e ela continuava encantada, aspirando oxigênio e louvando aquele momento de encontro sagrado com a natureza).
Volta 3: - Aiiiiiiiiiiiiiiiiii meu amor... uhuu... Putz grila, daqui a pouco tropeço numa destas bolas de pelos que estão correndo soltos por aí. Se tiver que desviar mais uma vez, vou ligar pra carrocinha. Cachorrada chata, tá doido... Ahhh, não acredito que essa bisca loira-à-lá-blondor passou por mim de novo sorrindo? Fala sério? Só pode ser efeito de anabolizante... ela faz bem o tipinho mesmo com aquele collant vulgar (continuava caminhando, a passos, cada vez mais tropeços... mas evitava erguer os braços para não dar cãimbra... também fechou a matraca para economizar oxigênio).
Volta 4: - Aiiiiiiiiiiiiiiiiii... uhu... Olha aqui "meu filho", acho que precisamos repensar a relação. Cara, o que é que tu tem contra mim? Só te dou amor e compreensão, e é assim que me retribuis? Tentando me matar de forma lenta e dolorosa? Te acostuma com a celulite, porque ela é de estimação... e a aponevrose já veio de fábrica. Se eu não estivesse tão moída, quebrava os dentes desta loira-filhote-de-cruz-credo... está rindo de que a infeliz? Ela já não cozinha mais na primeira fervura... (E o corpo começou a responder de forma cadenciada.... a perna ameaçou fazer greve caso não fosse cumprida a risca o horário de descanso... os braços simplesmente paralizaram em protesto silencioso... o pulmão já não aguentava mais aquele ar puro todo... a boca seca clamava por uma coca-cola gelada... normal, pelo amor de Deus... me oferece a "zero" se quiser conhecer Jesus mais cedo).
Volta 5: - Aiiiiiiiiiiiiiiiiii... uhuiiiiiiiiiii...Vou queimar essa droga de revista em praça pública, ela é um perigo para a saúde dos incautos. Aliás vou acionar judicialmente por propaganda enganosa, afinal, ela alardeia que a prática da caminhada leva ao paraíso... só esquece de alertar que, primeiro, tem um estágio obrigatório no inferno. (E ela, ofegante... se arrastava na pista... E a tal da endorfina? A "en" deu no pé logo na segunda volta. Já a "fina" caiu dura na quarta. Só ficou mesmo a droga da dor... essa não arredava o pé... grudou feito carrapato. Aliás, ela tinha que escolher: ou respirava ou caminhava ou piscava, porque os três juntos era impossível).
Volta 6: - (...) ai... ui...

De volta ao doce lar (de onde, diga-se de passagem, não deveria ter saído), ela rasteja até o sofá e se entrega a exercitar os músculos de seu cérebro (esse tipo de exercício, sim, é inofensivo) Assim, pensando com seus botões (qualquer tentativa de levantar os botões poderia se tornar desastrosa), ela decide que não se deixará abater... afinal, não vai ser uma mísera dor insuportável em todas as fibras de seu ser, aliada a um intestino irritável estressado, sono, dificuldade para respirar, se mexer e raciocinar, que vai impedí-la de voltar a caminhar... afinal, como dizia a sábia filósofa Scarlett O'hara, amanhã é um novo dia (pena que ela terá que esperar a ligação do pai dela que quer saber, com riqueza de detalhes, a mandinga certa para se livrar da mancha de café misturada com essência de jabuticada silvestre... nossa... é o tipo de conversa que poderá levar meses... seu pai demora um pouco para entender...).

PS: Qualquer semelhança com o que aconteceu nesta semana, é mera coincidência...

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Rasgando o verbo nas entrelinhas...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 17.3.09


Quando criei este blog, não sabia ainda qual seria o rumo de seus versos.
O título, Yada... Yada... Yada..., retirado do sitcom "Seinfield", retratava fielmente esta incógnita...
Textos sobre o nada...
Mas, tudo na vida está em constante movimento
Até as sementes mais despretensiosas
Precisam de tempo para se desenvolver
Amadurecer...
Assim, a medida que os dias foram passando,
E a inspiração foi ditando as regras,
Pude finalmente tirar o véu do rosto
E revelar minha verdadeira face...
Descobri que o que me encanta mesmo
É rasgar o verbo em rompantes que só explodem nas entrelinhas
É colocar na mesma frase palavras estéreis que juntas destilam impacto
É navegar ora na superficialidade dos eventos do cotidiano
Ora na profundidade dos meus sentimentos mais arraigados
É desnudar minha alma sem precisar tirar a roupa das emoções
É esse impulso incontrolável que move meus dedos
E arrebata meu coração.
Muito prazer
Esta
Sou eu!


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Foto...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 16.3.09

Há algo mágico na arte de fotografar.
Em fração de segundos adquirimos o poder de capturar,
com perfeição,
um momento ímpar.
Aquele acontecimento em específico,
nunca se repetirá com as mesmas
peculiaridades e nuances,
com os mesmos sorrisos e tonalidades,
com o mesmo sentimento realçado pelo flash.
Mas, enquanto estivermos de posse do negativo,
seremos capazes de reavivar o irreproduzível,
reviver o irresgatável,
eternizar o dissolúvel.
E, apesar do galope dos anos,
da modificação natural da paisagem,
da segregação dos elos,
do verão ter sucedido ao inverno infinitas vezes,
de todo flagrante harmonioso ter perdido a sintonia,
do pano de fundo ter desaparecido,
de todo conjunto fotografado estar absurdamente diferente.
Naquela foto amarelada pelo tempo,
tudo vai permanecer,
para sempre,
exatamente...
igual!

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Brincadeiras...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 4.3.09

Gosto de me revelar através de frases elaboradas
Tanto quanto de me esconder nas entrelinhas
E nesta paradoxal brincadeira
Exposta de uma maneira velada
Vou me descobrindo...

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Amanhã...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 3.3.09

Acordou naquele sábado cheia de intenções. Abriu os olhos e espreguiçou-se vagarosamente na cama com lençóis de linho florido. Calçou os chinelos macios, evitou o espelho e seguiu para a cozinha. Abriu a geladeira e seus olhos pousaram no pedaço generoso de torta feita com uma espécie de suspiro com o famoso chocolate francês Valrhona, contendo ainda pedaços de nozes e castanhas fartamente acomodados na camada de mousse que finalizava esse doce pecado. Comprara a iguaria na noite anterior, pensando em saboreá-la na companhia de um delicioso café da tarde e um bom livro, degustados na varanda de seu apartamento recém adquirido. Não tinha a menor graça comer tal delikatessen na correria do café da manhã, preparado sem qualquer ritual. Torcendo o nariz diante de tal blasfêmia, apanhou a garrafa de leite semi-desnatado, tomou um gole no próprio gargalo e mastigou três bolachas água e sal.

Enquanto engolia sem muito empenho, instintivamente seus olhos foram atraídos para a garrafa do "Château Lafite Rothschild 2000" que ganhara no natal passado, e ocupava lugar de destaque na adega que instalara na cozinha. Seus instintos mais primitivos imploravam para saborear ao menos um gole daquela preciosidade curtida em barricas de carvalho francês, qualificada pelos especialistas como néctar dos deuses com notas de frutas vermelhas frescas. Mas, havia imaginado como acompanhamento um jantar a dois, luz de velas aromáticas, Marisa Monte cantando baixinho, salmão grelhado ao molho de maracujá, ladeado por uma salada imaculadamente verde, batatas cozidas e arroz branco. Quem sabe até ousaria fazer seu famoso musseline de alho-poró. Era verdade que tinha todos os ingredientes a mão. Faltava era a companhia masculina que se encaixasse perfeitamente neste cenário elaborado. Balançou a cabeça de forma a afastar os devaneios que estavam consumindo preciosos minutos de seu tempo, e retomou o foco.

Seguiu para o quarto, abriu a porta do armário, e, como sempre, seus olhos foram seduzidos pelo cabide bege forrado com seda persa. Ele segurava cuidadosamente o vestido de honra de seu guarda-roupa. Sempre perdia o fôlego quando olhava aquela peça amarela esvoaçante. Comprara o traje numa boutique famosa, em uma de suas viagens a trabalho. Perdera a conta dos locais que já havia imaginado incendiar com essa roupa. Mas, como de praxe, ainda não encontrara o ambiente perfeito para harmonizar com o figurino. Não iria colocar justo esse vestido numa festa qualquer. Amanhã é um novo dia, costumava dizer. Irritada com as interrupções mentais, pegou a calça jeans desbotada velha de guerra, uma camiseta básica branca e foi escolher o sapato. A caixa prateada Jimmy Choo reluzia no canto direito de seu closet. Ganhara como prêmio há três anos atrás, por destacar-se como a mais arrojada e promissora profissional da agência onde trabalhava há mais de uma década. Era o tipo de sapato que conversava diretamente com o ego feminino. Era capaz de transformar qualquer gata borralheira numa Carrie Bradshaw. Haveria de selecionar um evento digno para estrear essa arma da sedução. Quem sabe, pensou, no tão sonhado jantar a dois. Achou graça do pensamento e mecanicamente pegou o tênis branco encardido e confortável que clamava pela aposentaria. Foi atrás do brinco de madeira que comprou na feirinha hippie montada em frente a igreja, e que se revelara seu maior curinga. Antes, porém, deu uma olhada no conjunto delicado de berloque e brincos de ouro branco 18k e diamantes que ganhara de sua mãe em uma data especial qualquer. Sempre que os tocava, sentia-se envolta numa aura de proteção. Talvez por isso, considerava-os mais do que jóias: eram um amuleto. Até pensou em colocá-los, como aliás, sempre pensava, mas, para ir ao supermercado? Não tinha o menor cabimento, pensou, franzindo a testa. Passou para o cômodo seguinte e pegou a mochila marrom, não sem passar os olhos pela bolsa de couro Dior que adquirira por impulso no mês passado, depois de folhear uma revista de moda qualquer, enquanto aguardava sua consulta de rotina no dentista. Pior do que isto! Comprara a página inteira, que incluía uma echarpe de cashmere e seda e chapéu de palha. Anotou mentalmente que teria que dar o jeito de estrear amanhã a bolsa maravilhosa que lhe custara parte substancial do salário do mês, bem como os acessórios.

Titubeou antes de pegar a chave do carro. Passou a mão no telefone, discou os três primeiros números de um telefone mais que conhecido, mas desistiu bruscamente. Sua mãe teria que dar o braço a torcer desta vez. Já estavam nesta guerra silenciosa há quase quatro meses. Mas as palavras proferidas por sua genitora no calor da discussão ainda estavam quentes no seu coração. Até pensara em jogar a toalha e convidá-la para passear, mas, quer saber? Quem sabe amanhã eu esteja mais compreensiva, ponderou.

Passou a mão na mochila e saiu calmamente rumo ao supermercado. Ao passar pela beira-mar sentiu um impulso quase incontrolável de parar o carro e caminhar um pouco, sentindo a brisa e o calor morno do sol. Estava um dia lindo, com direito a céu azul, mar acarpetado e gaivotas se exibindo em rasantes magníficos. Era o típico dia que convidava ao deleite. Chegou a pisar no freio, mas desistiu. Amanhã, jurou, vou me dar essa caminhada de presente.
Estava tão envolvida com seus pensamentos e planos futuros, que não percebeu a agitação que se desenrolava do lado de fora do seu carro. Quando a caminhonete vermelha desgovernada invadiu sua pista e atingiu a porta do motorista, prensando seu automóvel contra o poste, não teve tempo de pensar. Ouviu seu próprio grito, sentiu os cacos de vidro ferirem sua pele, e tudo se fechou em profunda confusão. Viu sua vida se desenrolar em câmera lenta, como num filme amarelado e rasurado pelo tempo. Não sabe ao certo quanto tempo ficou cercada de metal por todos os lados. Na verdade, sequer tinha certeza de estar viva. Ouvia vozes, estalos, marteladas, serras elétricas a pleno vapor, sons que não faziam parte do seu cotidiano. De repente, abriram seu carro como se fosse uma lata de atum. E ela enfim saiu daquele inóspito túmulo de ferro ardiloso a que havia sido reduzido seu veículo.

Os policiais, paramédicos e curiosos a olhavam como olhariam para uma assombração. Não podia culpá-los.
A julgar pelo estado de seu carro, rebaixado a um amontoado de lata retorcida, era quase impossível acreditar que alguém poderia ter sobrevivido. Mas ela sobreviveu. Fisicamente intacta, fora parcos arranhões. Emocionalmente ainda estava presa nas ferragens, tentando entender o que acabara de acontecer. Alguém saiu da multidão que se aglomerara para acompanhar a cena fatídica e a abraçou de forma terna, sussurrando em seus ouvidos: "filha, é um milagre, você nasceu novamente". Ela estava confusa demais, anestesiada com o impacto dos acontecimentos, incapaz de responder a gentileza. Mas as palavras daquela estranha sem rosto ecoaram em sua mente e abriram portas em sua alma. Portas que há muito tempo estavam emperradas.
Resolveu como podia a burocracia com o seguro, guincho e outras faces pragmáticas do acidente. Ainda zonza, pegou um táxi e foi para casa.

Abriu a porta do apartamento vagarosamente, e adentrou seu lar como se fosse a primeira vez. Ligou o som da sala e foi direto para o quarto. Rompeu o lacre do kit de loções para banho "Love Spell"
da Victoria's Secret, que prometia ser uma profusa e deliciosa combinação da flor de cereja, muguet, maçã vermelha, pêssego da Georgia com toque de tamarindo. Enquanto Marisa Monte entoava "Preciso Me Encontrar", tomou um banho demorado, deixando a água reavivar cada fibra de seu ser. Enxugou-se delicadamente e deslizou o vestido amarelo no corpo. Calçou sua sandália Jimmy Choo e finalizou o visual com seu talismã. Foi para a cozinha, não sem antes fitar-se demoradamente na frente do espelho. Abriu a geladeira, rasgou o plástico de proteção das impecáveis cadeiras com estrutura de málaca e trançado de juta e sentou. Queria, ou melhor, precisava sentir a rusticidade do tecido roçando na sua pele. Despejou o Château na sua taça mais cara. Quando sentiu a explosão de sabores que o primeiro gole causou em sua boca, deixou que as lágrimas escorressem livremente pela sua face, dando um toque salgado às notas de madeira. Abriu a embalagem da delikatessen e aqueceu cada célula do seu corpo com o gosto exótico da torta de chocolate. Quando terminou de degustar o último pedaço, deslizou o dedo pelo prato, sentindo a textura areada da cobertura, e presenteou seus lábios com o restinho do sabor. Queria desfrutar na prática, cada gota de todos os prazeres que até então sempre estiveram ao alcance de suas mãos só na teoria.

Ainda embalada por aquele momento único de amor próprio, pegou o telefone e ousou discar todos os números. Sua mãe talvez não tenha compreendido o seu tom de voz, o seu pedido de perdão desengonçado ou mesmo as palavras que pareciam jorrar diretamente de seu coração. Palavras de amor que represara em seu íntimo desde a mais tenra idade e que, enfim, encontraram solo fértil no âmago daquela que lhe dera a vida. Choraram juntas, sem o menor pudor. Deixaram verter com toda a intensidade o sentimento que as unia, mas que esbarrava no orgulho forte de suas personalidades turronas. Fora o momento mais íntimo que desfrutaram ao longo de suas existências. O primeiro de muitos, pensou emocionada. Marcaram de jantar juntas. Desligou sentindo uma leveza que a fazia flutuar através de emoções até então desconhecidas. Olhou para o sol espetacular que ainda teimava em brilhar no horizonte e saiu.

Ninguém entendeu quando ela adentrou para caminhar na pista da beira-mar envolvida em brilho da cabeça aos pés e vestida com um glamour digno de festa VIP. Ela não se importava. Não agora. Nunca mais. Hoje era tudo que ela tinha. Afinal, o amanhã poderia se revelar um dia cheio de promessas irrealizadas.

E assim seguiu caminhando, a passos lentos mais firmes, sentindo o acariciar do vento na face e enchendo o ar daquela manhã ensolarada com seu perfume de maçã vermelha e pêssego. Estava tão satisfeita consigo que devolvia aos olhares reprovadores um sorriso cuja sinceridade ainda lhe era estranha.
Descobriu, enfim, que esse era o momento mais especial da sua vida. Passou a nutrir sincera afeição por si e, comovida, constatou que estava na melhor companhia que alguém poderia ter. E tudo isso porque sentiu o hálito do destino sussurrar no ouvido de sua alma. Sentiu na pele o poder do quase. Precisou quase morrer para começar a viver.

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Explosão...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 27.2.09

Algumas palavras me arrebatam
Absorvo o néctar de cada sílaba de forma pausada
Alimentando meus vazios
Aquecendo meus invernos...
E quando juntas, me nutrem a ponto de saciar a alma
Penetram minhas defesas
Arregaçam meus pensamentos
Quebram a minha razão em mil pedaços
Abrem as comportas da loucura
Alcançam locais que não enxergo a olho nu
E se alojam nas minhas entranhas
No limite exato onde a decência e a insanidade correm parelhas...
E ali se aconchegam silenciosas
Germinando no escuro dos meus devaneios
Alimentadas pelo sangue latente da minha inspiração
Martelando o universo dos meus sonhos
Rasgando as paredes dos meus dogmas...
E na ânsia de extravasarem em toda a sua plenitude
Restam limitadas por seu próprio abismo
Não podem gerar prosa e verso
Tamanha a sua imensidão...
Resignadas, seguem o caminho alternativo da emoção
E se deixam escorrer lentamente pelos meus olhos
Cravando um rastro de explosão na minha face
E desvanecendo no ar de meu sentimento...

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Nota de rodapé...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 25.2.09


Era uma vez duas histórias de vida correndo paralelas. Cada qual com sua própria trama, palavras sonhadoras intercalando angústias, vírgulas de emoção dividindo desertos, pontos de exclamação lardeando fantasias. Perdida nas entrelinhas jazia a incessante busca por outro autor, disposto a firmar parceria e colorir com seus momentos a rotina das páginas amareladas pelo tédio da solidão.

De repente elas se encontram. Seus temas guardam harmonia e similitude. Os olhares se cruzam, os sinais disparam, os pulsos aceleram descompassados. Espíritos que se reconhecem, juras eternas lançadas ao vento, lábios que se saciam, corpos que ardem uníssonos. Dançam ao som do enamoramento e no altar do sentimento prometem escrever juntos
uma única história de amor, serem fiéis à gramática do coração, na saúde da semântica e na doença da forma, na riqueza do vocabulário e na pobreza da interpretação, respeitando a fragilidade do início e evitando o desgaste do fim.

Brindam essa nova fase com a taça do comprometimento, e guardam cada qual na gaveta secreta de seu ser, o encarte celibatário até então editado. Selam essa intenção com um volume novo, encadernado com o frescor das promessas, recheado de folhas em branco clamando para serem preenchidas a dois, com enredos variados, fecundidade de detalhes, memórias coloridas, comemorações gravadas em nanquim, emolduradas por fotografias eternizando paisagens afetivas.

Os anos galopam impiedosos, alheios a fogosidade da intenção, comprometendo severamente com seu trote rude, a altivez da concordância. Sujeito e predicado não mais dividem a mesma oração, sequer conjugam o verbo no tempo certo. Os capítulos passam a ser escritos de forma desconexa, marcados pela hipérbole da exasperação e pontos de interrogação precariamente articulados. Os personagens se perdem no idiomatismo deficiente, trocando farpas veladas, até caírem na vala comum do evitamento. Dão vazão aos seus próprios desatinos dividindo a mesma obra, mas, em títulos desenvolvidos separadamente, cada qual com protagonista, ritmo e direção específicos. Os textos carregados de aventuras conjugadas são substituídos pelas linhas em branco dos versos não declamados, reticências dos poemas ditos sem excitação, infertilidade das narrativas desprovidas de comoção e saturadas de mágoa.

Pouco a pouco o hiato que separa cada parágrafo consome a maior parte da página e o romance segue agonizando por falta de métrica. A medida que a distância se agiganta e a realidade desponta cruel cobrando seu preço, o divórcio dos votos sagrados proferidos no berço da paixão se torna inevitável, encerrando a fábula através de um parco e sofrido epílogo, sem direito a bibliografia. Passado o luto pelo futuro projetado em expectativas que não encontraram solo fértil na literatura da existência, é hora de vasculhar com vontade os recônditos da alma em busca do livro pessoal outrora jogado num canto empoeirado do esquecimento. E cada qual retoma as rédeas de seu destino e reassume a autoria de sua própria crônica.

E um, que era a razão de existir da história do outro, deixa de ser o personagem principal nesta nova etapa, para virar, com sorte, uma mera nota de rodapé...

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Amarras...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 24.2.09


Alguns hábitos são tão aconchegantes, que sequer percebemos o preço que nos cobram.
Ali estamos, estagnados, enebriados, sorvendo um pretenso conforto que nos impossibilita de prosseguir em busca de novas paisagens.
Algumas manias estão de tal maneira arraigadas em nossa personalidade, que acabam criando raízes.
Acostumados que estamos com sua presença, somos seduzidos pela falsa promessa de alívio que o conhecido sempre alardeia.
E nos alimentamos de um sentimento viciado, incapaz de se renovar, pois jaz adstrito aos próprios muros que nos servem de proteção.
E até crescemos na medida exata de nossos limites imaginários,
de forma absurdamente precária, tal qual uma árvore frondosa estará condenada a minguar dentro de um minúsculo vaso, sem nunca ter conhecido o gozo da liberdade e a carícia fecunda da mãe terra.

Alguns hábitos são tão aconchegantes, que sequer percebemos que estão nos matando aos poucos.
Nossos olhos se acostumaram com o cenário e tornaram-se incapazes de reconhecer pequenos milagres que despontam diariamente no horizonte.
Nossos ouvidos se habituaram com a melodia cadenciada habitual e seguem imunes as pequenas baladas que a natureza sussurra no silêncio da noite, no cair da chuva ou no reboar do trovão.
Nosso olfato está impregnado com o cheiro pérfido da rotina e inabilitado a aspirar o doce perfume das possibilidades que desabrocham vaidosamente ao primeiro raiar do dia.

Alguns hábitos são tão aconchegantes, que sequer percebemos que não mais nos pertencem.
Já não nos trazem o prazer de outrora, e há muito deixaram para trás sua função de muletas para tornarem-se apenas fardos, que, a medida que o tempo avança, se fazem cada vez mais pesados.
Nossos atos não passam de gestos automáticos, desprovidos de movimento e despidos de qualquer emoção maior.
Nesta hora de reconhecimento, em que olhamos nos olhos de nosso algoz, outrora salvador, a despedida se torna inevitável.
E cortamos as raízes, e seguimos zonzos, com as pernas bambas pelo desuso, o coração atrofiado retomando lentamente o pulsar, sem saber direito para onde seguir e o que fazer com tanta leveza... sentimos que, talvez, até possamos, quem sabe, enfim... voar!

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Parabéns amiga...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 17.2.09


Já me declarei pessoa reservada, e, como tal, construo minhas amizades aos poucos. Prefiro a lentidão dos passos firmes, à rapidez dos tropeços. Alguns amigos em especial, considero como irmãos de coração. É uma afinidade que não comporta explicações... ela exige apenas vivência. Eles não participam fisicamente do meu cotidiano, mas a sua simples existência me supre. Juntos escrevemos muitas páginas do diário da minha existência, sem as quais eu restaria incompleta.

Uma dessas pessoas que me é mais que cara, me acompanha desde os idos de 1994, e o nome dela, Clara, é uma alusão a luminosidade que ela exala por todos os poros. Aliás, verdade seja dita, os olhos são realmente o espelho da alma, e os da minha amiga são de uma beleza e profundidade que dispensam comentários.
A Clara é uma mulher poderosa, que transforma os obstáculos em trampolim, linda de corpo e alma, esposa apaixonada, mãe dedicada, filha companheira, dona-de-casa que mistura os quitutes dos tempos pretéritos com a modernidade da era tecnológica, profissional sempre antenada, e, por incrível que pareça, ainda sobre tempo para ela ser amiga. E não é daquelas amizades que carrega a faixa, mas não sustenta o título: é uma pessoa que procura estar sempre presente, apesar da distância física que nos separa.

Fevereiro é o mês em que minha amiga-irmã celebra o dia de seu nascimento. Tempos atrás descobri o tal do scrapbook digital. Fiquei encantada. Na hora decidi estrear a brincadeira fazendo um cartão de aniversário para a Clarinha. Entretanto, apesar da bela intenção, o dia 08 chegou... e passou como num piscar de olhos. E eu, enrolada que estava com prazos e os afazeres rotineiros, além de não conseguir terminar o cartão, também deixei o dia passar batido. Assim que me toquei da falha imperdoável, resolvi que só iria falar com ela depois que terminasse o mimo. Mas, acabei sendo tragada pelos compromissos profissionais, que me impediram de fazer o básico do básico na minha vida. E o máximo que consegui criar é esta montagem que emoldura esta mensagem, que não chega nem aos pés do cartão que povoa minha imaginação fértil.

A correria do dia-a-dia tem exigido muito. Tenho que me desdobrar em mil para dar conta de todos os setores da minha vida. E, em face da escassez das horas, é justamente a busca pela perfeição que tem me levado a pecar... Deixar passar em brancas nuvens o aniversário de alguém vital na minha vida é uma falta que espero não repetir.
Afinal, neste corre-corre frenético, o que de mais precioso e raro posso oferecer àqueles que amo, é uma fatia do meu tempo.
Confesso, tenho uma predileção por essa data tão especial. Talvez, seja por puro egoísmo. A maioria das datas comemorativas são coletivas. Já o aniversário é personalizado, é um dia num vasto ano de 365, em que os holofotes são lançados sobre você. É a celebração do instante em que você venceu todas as barreiras naturais e disse ao mundo chorando: eu vim para brilhar! Enfim, é a comemoração do exato momento em que Deus presenteou o mundo com a sua presença.

Por isso mesmo amiga, apesar do seu coração bondoso ter relevado mais essa falta, fica aqui o registro do pedido de desculpas, e, claro, meu aprendizado. A partir de hoje vou dar vazão ao meu sentimento, seja através de um cartão perfeitamente emoldurado, seja através de um recado singelo no orkut, ou mesm
o um email sem formatação. Vou me preocupar menos com a forma e mais com o conteúdo. Porque, no fim das contas, seja qual for o formato escolhido, a mensagem é única amiga: sua amizade é uma benção essencial na minha vida. Apesar de não conversarmos tanto quanto gostaríamos, torço e rezo por você diariamente.
Onde quer que esteja Clarinha, sinta-se beijada através da ternura que liga duas almas atadas pelos laços da camaradagem... aperto sua mão através do tempo... abraço você longamente através das lembranças, e selo este encontro com o desejo sincero de que caminhe sempre de encontro a sua felicidade!
Porque você é merecedora de cada uma das suas vitórias...
Feliz existência, amiga!
Obrigada por você me incluir nela...

Obs: Apesar de eu amar o dia do meu aniversário por ser só meuzinho, bem, tenho que confessar que o meu caso é bem peculiar: acreditam que meu irmão inventou de nascer bem no meeeeeeeuuuuu dia? É, somos gêmeos com diferença de 8 anos... Mas, eu não o culpo... Deus pediu para o mano escolher um dia para nascer, daí ele me viu, e pensou: "uau, que pessoa linda, maravilhosa, perfeita e modeeesssssta... quero ser igual...", e tchum, nasceu no dia mais lindo do ano. Affff... chegou perto maninho, chegou perto.. rssss.

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Divagando...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 16.2.09


Sempre fui uma pessoa reservada.
A minha vida, os meus momentos, as minhas lembranças, os meus segredos, são tesouros que guardo a sete chaves.
São essas riquezas peculiares que forjaram a minha personalidade, e guardam em si a minha essência mais pura.
Por isso, gosto de dividir meus devaneios, dores, alegrias, amores, no aconchego de uma convivência moldada a passos lentos, porém firmes. Quando essas recordações saem de minha boca, se misturam com a saliva da emoção e inundam o ar com trechos sagrados da minha existência... Quando saem de outros lábios, são destituídas de movimento, viram palavras estéreis, profanadas, desgarradas do contexto que as torna vital.
Sentimentos não nascem prontos e acabados, são edificados ao longo do tempo, com muita paciência, respeito e dedicação.
Não acredito em amores que ainda não passaram pelo crivo do cotidiano. Os amantes insistem em nadar eternamente na superficialidade da paixão. Não entendem que necessitam afogar a carne para renascer alma.
Não acredito em amizades de balada. Daquelas que dividem a conta, o copo, a carona, mas que não arriscam um olho no olho, por medo de se perder no outro. Conhecem de cor os vícios, mas ignoram os sonhos. Saboreiam juntos o petisco, mas se separam antes do prato principal.
Na construção dos meus relacionamentos, prefiro me prolongar no projeto da fundação e na escolha do cimento, do que me envolver precocemente com o brilho efêmero do acabamento.
Se é para morar no meu coração, pode ser numa choupana, desde que sólida e estruturada,
resistente às intempéries do humor, a aridez da distância, a roda-viva da rotina.
Lindos castelos de areia não mais me seduzem... eles cedem ao primeiro sinal de vento, e a imponência de sua beleza é substituída por um grande vazio.
No terreno do meu coração, há construções abrigando minha família, meus amigos, meu homem... algumas outras foram desocupadas, mas seus alicerces continuam intactos, e isso me basta... outras tantas não resistiram, e renderam-se a efemeridade de seu sustentáculo.
No terreno do meu coração eu planto flores, para que as borboletas possam se aproximar. Eu tiro as ervas-daninhas e as transformo em adubo. Eu cultivo hoje as sementes, para que amanhã os seus frutos possam servir de alimento.
Por isso mesmo, não importa o quanto as tempestades da vida fustiguem esse solo sacro, pois enquanto eu respirar, ele estará livre de todo mal, completamente protegido... pelo meu amor!


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Vai com Deus...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 9.2.09

Estava euzinha na Livraria Catarinense, dando aquele "rolé" básico para ver as novidades, quando paro ao lado de duas amigas vasculhando avidamente a sessão de auto-ajuda (não, eu não estava bisbilhotando na conversa alheia, mas teria que enfiar um tampão no ouvido se não quisesse escutar).
A "Fulana" estava com a carinha visivelmente abalada, e, a cada segundo agradecia a "Sicrana" por sua companhia, compreensão, por ela ter perdido o almoço para confortá-la, blá, blá, blá. Dizia ainda, que sua fé estava sendo renovada, porque ela não parava mais de rezar. Acreditava piamente que Deus iria "consertar" a situação toda.
A "Sicrana", por sua vez, já devia ter lido tudo quanto é livro do gênero, porque começou engatando Roberto Shinyashiki, passou para Deepak Chopra, arranhou um pouco de Louise Hay, e lascou de chofre Yanla Vanzant (uau, não vi essa chegando, até me assustei). E quando achei que minha nova "ídola" tinha terminado, lá vem pinceladas de Paulo Coelho, pitadinhas de Richard Back, e o fechamento com chave de ouro: a recentíssima Elizabeth Gilbert (tá, tá, pra eu saber associar cada frase que ela falou com o autor, confesso, é porque também li toda a sessão, e o que não li já está na minha lista para adquirir ... lembrete: correr e comprar o livro da tal da Gilbert).

Pelo que pude entender no auge da minha intromissão indireta e silenciosa (a esta altura eu já estava com dor no pescoço) o marido da "Fulana", que vamos chamar de "Bofão" (você já vai entender "o porque"... olha, tô sem saco pra ver se é "o por que", "o por quê", "o porque" ou "o porquê"... se preocupa com o conteúdo e esquece a porcaria da gramática), além de ter caído fora do casamento de 25 anos, já estava todo serelepe desfilando com outra pela cidade (homens!!! &%@@*??^ será que nunca ouviram falar em luto??? pelo amor de Deus, era um casamento de 25 anos, não dava para pelo menos FINGIR tristeza por um período curto de tempo? unf!!!!).
Confesso, a cena pitoresca me chamou a atenção, e, manteiga derretida como sou, já estava toda emocionada (tá, tá, metida como sou só faltou ir lá abraçar a "Fulana" e ainda dar uma colher de chá com palavras da Colette Dowling).
Depois de muitas idas e vindas, e citações brilhantes (olha, até comecei a anotar pra dividir com vocês, mas a "Sicrana" falava muito rápido, eu ainda estava anotando o Richard Back e ela já estava no Paulo Coelho... como é que é? por que não decorei? pára né, ou eu prestava a atenção na conversa ou decorava as tiradas... me poupe!), a "Sicrana" não pode conter um gritinho de felicidade (tive que me segurar pra não pular junto):
- "Fulanaaaanaaaa, está aqui, achei.
Este livro vai mudar a sua vida, vai restabelecer sua fé nos homens, vai colar cada caquinho do seu coração estraçalhado, vai fazer ressurgir a mulher maravilhosa que está escondida embaixo de tanta desilusão. Faço questão de te presentear neste exato momento" (nota: por favor, se alguém disser que eu quase caí na tentativa de me espichar para ver o nome do bendito livro mágico, é pura mentira... caaaaaaapaaaaazzzzzz, nego até a morte! mas, cá entre nós... alguém aí tem uma dica de qual livro pode ser????).
Gente, eu juro, já estava a beira das lágrimas, completamente tocada por aquele momento único perdido no meio do cotidiano, quando a "Fulana" me solta essa pérola:
- "Não tem um livrinho mais fininho?".

(...) (essa pausa significa a travada que o meu cérebro deu no momento... sabe quando você escuta mas não acredita?)
(...) (calma, calma... ainda estou em choque)
(...) (tico ainda está caído, mas o teco dá leves sinais de recuperação)
(... Não... tem um... livrinho mais... hã... fi-ni-nho?) (ô teco, será que foi isso que ela falou mesmo? a gente ouviu errado, só pode ser...)
(fiiii-ni-nhooooo...) (vai tico reage caramba, tá começando a me irritar, sempre eu que carrego você nas costas)

Sabe aqueles dias em que você acorda imbuído de um sentimento divino, e quando as pessoas te jogam limão, você devolve uma limonada deliciosamente adocicada? É como se você transcendesse o momento, a pessoa, o ato em si, e olhasse o outro através das máscaras, enxergando a essência, as cicatrizes, os medos, as limitações, os sonhos e as desilusões que estão levando aquele ser em especial, a tomar uma determinada atitude. E quando isso ocorre, o usual julgamento é substituído por compaixão...
Pois é... pensamento lindo, ma-ra-vil-ho-so, mas, bu-huuuu, que peninha, hoje definitivamente não é um desses dias, meu ser está transbordando sentimento, mas pode ter certeza de que não tem nada de "divino" neles...
NÃO TEM UM LIVRINHO MAIS FININHO? (enfim, tico e teco caíram na real)
&%@@*??^

Incrível como o ser humano pula do céu ao inferno numa fração de segundo. As minhas "quase lágrimas emocionadas" viraram pura indignação
(juro, a minha vontade foi de pegar a dita cuja e dar um safanão... &%@@*??^... fazer ela engolir a coleção inteirinha do Augusto Cury... acrescentar um olho roxo e dar motivo para ela ficar com aquela cara de "cachorrinha pidonha"... &%@@*??^).

Caramba, depois as pessoas se questionam porque Deus as abandonou. Como é que Ele vai ajudar, se a criatura não se dá nem ao trabalho de se esforçar? Se até para melhorar quer pegar o caminho mais curto?
Rezar, por si só, não opera milagres. É preciso ação, resolução, andar, cair, correr, levantar... movimento!
Por acaso você vai se jogar de um avião e esperar que Deus aperte o botão que abre o pára-quedas?
Então você vai largar um carro zerinho com as janelas abertas, sem alarme, com a chave na ignição e o documento no banco, e ficar parado a distância rezando para que ninguém o roube? E Deus que se vire?
Deus, por certo, vai abençoar e reconhecer o esforço que você fez para comprar o carro. Mas, faça o favor de colocar alarme, trancar as portas e cuidar melhor do que é seu. Deus nunca falha... mas, fala sério, deixa de preguiça e faz pelo menos a SUA parte.

Afffffffffffffff... fica aqui o desabafo!
Vai com Deus "Fulana", e que o "Você-Sabe-Quem" te carregue.... afinal, ainda não editaram uma versão da bíblia resumida e fininha, né?
Quer saber? Quem estava realmente precisando de apoio e ajuda era o pobre coitado do "Bofão"... ainda bem que ele saiu dessa fria em tempo!

Obs.: Vocês não tem noção do quanto o meu anjo Ariel está tagarelando aqui do meu lado, dizendo que não devo ficar julgando os outros, blá... blá... blá... Depois que a gente dá uma "livrada" e cai pena de tudo que é lado, é porque somos pupilas malcriadas. E, olha lá Ariel... os meus livros não são nada fininhos... Ô linguarudo teimoso... Bom, não tem jeito. Se vocês encontrarem um anjo da guarda com a asinha meio capenga, não se preocupem: é o meu! Ele apenas sentiu o hálito da minha coleção de livros de auto-ajuda mais de perto...

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Palavras...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 7.2.09

Gravei a frase, mas esqueci o nome do filme: as pessoas escrevem aquilo que não conseguem dizer.
Talvez seja uma verdade.
Perdi a conta das vezes em que coloquei minha dor em prosa e verso, rimando com cada aspecto do meu momento.
Outras tantas, derramei alegria em forma de verbo, e inseri esperança no preto e branco do cotidiano, através de adjetivos carregados de vida.
Cansei de colocar o impronunciável nas entrelinhas, de desnudar minha essência na pontuação cuidadosamente exagerada, de contar segredos escondidos no predicado.
Às vezes, você até tenta falar, mas sua boca tem vontade própria, não aceita o comando do seu coração, não transmite com fidelidade o recado, e acaba se perdendo... larga o discurso para fora dos lábios, mas aprisiona todo o sentimento.
Há ainda os momentos em que nem as lágrimas conseguem traduzir os lamentos da alma.
Também não são poucas as horas em que o som certeiro ultrapassa a barreira da garganta, vence a batalha contra os dentes cerrados e ousa sair... mas, é tarde demais, já não há ninguém para ouvi-lo.
Então só resta escrever...
Por que as palavras são fieis companheiras, estão sempre dispostas a preencher o vazio que o avançar do ponteiro do relógio impõe de tempos em tempos.
E mesmo quando são jogadas dentro de um texto desconexo,
podem até se render a fragilidade da sintaxe...
mas jamais perdem o seu real significado!

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Saturno...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 6.2.09

Cena um: Você está trabalhando igual a uma condenada, mal tem tempo para escovar os dentes. O único exercício que tem feito é levantamento de barras... de chocolate. A celulite se mudou para as regiões baixas de mala e cuia e promete brigar na justiça ao menor sinal de despejo. Depilação virou supérflua frente a lista de coisas urgentes a fazer antes do final do mês. Entretanto, alheio ao campo de batalha que virou sua geladeira, seu namorado chega na quarta-feira do amasso, cheio de amor para dar. Começam as preliminares, e você tenta desesperada lembrar se está usando àquela calcinha que está furada bem na pata esquerda do bambi (é do bambi mesmo, era a única que estava disponível). Você procura em vão apagar todas as luzes do quarto, na tentativa de enganar o pobre do bofe (afinal, não é verdade que o que os olhos não vêem o coração não sente?). De repente, ele olha para você com aquele olhar apaixonado e diz: "tira logo a roupa... te quero nua!".
E você pensa enquanto agarra ele com toda força: "Meuuuuu Deusssss obrigada por esse príncipe encantado que está transformando minha vida num conto de fadas...".

Cena dois: Passado algum tempo desde o sufoco que, diga-se de passagem, rendeu vários pontos para seu namorado, você resolve dar um jeito na sua vida, e começa a organizar sua agenda de forma a guardar um tempinho para si. A celulite foi notificada e prepara a mudança; corridas no parque para firmar a gelatina... ops, quer dizer, os "músculos"; alimentação balanceada; sucos; chás; barra de cereal; enfim, a vida começa a surgir novamente no "corpito" até então bem surradinho. Quando você começa a se sentir no ponto, resolve jogar pesado. Inventa uma desculpa para o chefe, sai mais cedo do trabalho na quarta-feira do amasso, e começa uma maratona que espera termine em horas e horas do mais puro deleite. Você está economizando há uns meses sonhando com aquela lingerie ma-ra-vi-lho-sa que se não vai te deixar uma Gisele Bundchen, por certo não vai fazer feio. Quando saca o cartão de crédito para comprá-la, sente o primeiro orgasmo. E aí segue... Mão, pé, depilação, "blondor" para clarear os pelos, esfoliação, auto-bronzeador para deixar marquinha, creme, óleo, perfume, escolha da bijoux perfeita, sandália de salto alto espetacular, uma maquiagem leve mas eficiente, vinho na geladeira, morangos a espreita, velas aromáticas. Ufa! Tudo pronto! Os cinco minutos que separam você da chegada do amado parecem uma eternidade. Ao ouvir a campainha, você praticamente desfila até a porta, e ao fitá-lo, lança mão daquele olhar lânguido que já vinha treinando faz tempo. E então ele entra... yessss... uhuuuuuu. Dá uma olhada básica (sim, eu disse BÁSICA) aprovando o visual, toma o vinho no gargalo, enfia o morango goela abaixo, beija você quase quebrando seus dentes e alguns segundos depois diz com aquele olhar apaixonado: "tira logo a roupa... te quero nua!".
E você pensa enquanto tira a lingerie que te custou 3 dígitos (preciso dizer que junto com ela vai todo o tesão por água abaixo?): "Meuuuuu Deusssss eu sei que joguei pedra na cruz, mas puxa vida, será que mereço esse sapo que está coaxando na poça de lama que está virando a minha vidinha miserável?".

Depois do nocaute, você decide conversar sobre a relação.
Ele diz que não entende as mulheres, pois uma hora elas ficam todas excitadas com uma tirada, e em outro momento, a mesma frase as deixa deprimidas. Por certo elas são de Vênus.
Você, por outro lado, diz que ele é um insensível, e insensível, e insensível. Por certo eles são de Marte.
Fala sério, se eles são de Marte, elas são de Vênus e nós moramos na Terra, é praticamente a recriação da torre de Babel.
Deus, páaaaaara tudo que eu quero descer.
Quero ir é pra Saturno!

Está certo que as mulheres tendem a ser hormonais, mas não é justamente aí que reside a graça de tudo?
Já pensou que tédio você fazer todo dia a mesma coisa, ter as mesmíssimas sensações, as exatas reações.
Se você quer passar no vestibular, tem que ralar no estudo.
Se você quer ser promovido, tem que se dedicar, fazer algo a mais do que os outros que estão disputando a mesma vaga.
Se você quer passar num concurso, tem que estudar...
Tudo na vida que catapulta você para uma posição melhor, seja ela cultural, profissional, espiritual, requer dedicação, esforço, estudo, paciência.
Porque então achamos que não precisamos ter o mesmo empenho num relacionamento?
A maioria das pessoas, tanto homens quanto mulheres, acha que somente a conquista é que demanda "sacrifício"... depois, a relação navega sozinha, sem precisar de maiores manobras. Infelizmente, as estatísticas contrariam essa premissa preguiçosa. Nunca a separação esteve tão em voga...

Homens e mulheres são diferentes. Isso é um ponto pacífico.

Por sua vez, relacionamentos saudáveis são um porto seguro, um lugar de repouso, de reabastecimento de energia, de criação e conquistas, de prazer.
Vale ou não vale a pena o esforço?
A mulher deseja ser lida, entendida, nunca decifrada (isso já é impossível, nem ela mesma é capaz de tal façanha).
E, apesar de parecer algo quase impossível de se alcançar, na realidade, não exige um esforço sobrenatural.

Requer apenas o cuidado de olhar cada momento como se fosse o primeiro... porque na verdade, ele é. É único!
Não interessa se a sua ex-mulher gostava de abóbora e detestava ser chamada de "fofurinha", ou, se o seu ex-namorado odiava "chick movies" e gostava de cafuné na planta do pé. A pessoa que está com você hoje, odeia abóbora, ama de paixão quando você a chama de "fofurinha", só gosta de "chick movies" e sente cócegas nos pés. E sabe o que é pior? Você nem percebe, continua servindo abóbora como prato principal... quatro vezes por semana. Vai negar à sua parceira atual esses prazeres só porque a "ex" te traumatizou? Procura um terapeuta, um exorcista, faz alguma coisa criatura. Decida onde você está. Quem vive no presente reagindo ao passado, não sai do lugar.
Foque-se no momento presente... e só então aja!
Num dia muito inspirado, você enviou flores para o escritório dela, junto com uma lingerie e um bilhete descrevendo as façanhas que a noite prometia. Foi inesquecível. Só porque funcionou uma vez, você vai repetir a dose bem na semana em que a babá que era uma mãe para ela faleceu? Vai? Vai?
Estes tempos você incorporou o James Bond, jogou ela contra a parede e ela amou... aliás, verdade seja dita... ela foi ao delírio. Experimenta repetir a dose quando ela estiver na TPM. Eu aposto que você é quem vai delirar James Bond: pela pancada que irá sentir quando sua cabecinha de vento "encontrar" a parede...
De novo, qual a chave do sucesso?
Foque-se no momento presente... e só então aja!


Deu para entender, ou quer que eu desenhe?
(aprendi essa pérola com a minha cunhada Aninha... rsss).
As pessoas que passaram pela nossa vida deixaram marcas. Essa é uma verdade irrefutável, porque, afinal, os encontros nos modificam... alguns, nos curam, outros, deixam feridas e cicatrizes. Entretanto, a pessoa que hoje está ao nosso lado, nada tem a ver com isso. Cada novo relacionamento que inicia, é uma página em branco, que deve ser colorida da melhor forma possível.
Ontem é história, hoje é uma nova realidade, cheia de variantes diferentes, que estão a exigir uma nova postura.

E, cá entre nós... o homem que entende isso... bem, vai ser tratado como Rei no planeta Vênus. E, por certo, acabará desfrutando do paraíso ainda em vida... aqui mesmo, neste lindo planeta chamado Terra...

Dica de filme: Um filme nacional, delicioso e hilário, que retrata bem essa diferença entre os sexos, é o impagável "Se eu fosse você 2". Acreditem, se você gostou do primeiro, vai simplesmente amaaarrrrr o segundo. Imperdível!





Trailer do filme "Se Eu Fosse Você 2"

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Dúvida cruel...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 5.2.09

A vida é realmente uma mãe rigorosa e paradoxal.
Apesar de ensinar, pacientemente, os seus filhos,
não hesita em testá-los avidamente.
Mal acabamos de aprender a lição, e lá vem a prova real.
Mal acabamos de degustar as primeiras mordidas, e somos obrigados a mandar tudo goela abaixo para não sufocarmos.
Mal acabamos de decorar o texto, e já somos obrigados a encená-lo sem TelePrompTer.
Mal acabamos de identificar as peças, e somos obrigados a montar o quebra-cabeças.
Mal acabamos de ensaiar os primeiros passos, e já somos obrigados a correr cem metros com obstáculos.
Aliás, não são poucas às vezes em que somos atropelados pelo instinto maternal do universo.
Só que, na maioria das vezes, nós filhos, imaturos que somos, não sabemos o que ela espera de nós... uma atitude ou paciência?
E quando temos vontade de chutar tudo para o alto, é porque não domamos nossa impaciência, ou porque chegamos no nosso limite máximo de tolerância?
E quando fazemos e refazemos a conta e não obtemos o resultado que nos apontam, é porque nossa conta está errada, ou porque o resultado alheio é que está?
Talvez essa dúvida revele que ainda não aprendemos a lição...
Ou, quem sabe...
Que desta vez, nossa mãe apressada, está exagerando na dose...


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O clube de leitura...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 30.1.09

Acabei de assistir o envolvente filme "O clube de leitura de Jane Austen" ("The Jane Austen book club"). A história não poderia ser mais singela: por seis meses, seis pessoas (cinco mulheres e um homem), se reúnem uma vez por mês para discutir as clássicas histórias da romancista britânica Jane Austen, que muitos consideram uma das figuras literárias mais importantes da Inglaterra depois de Shakespeare.

Confesso, o filme é despretensioso. Mas, para uma pessoa como eu, que adora histórias tiradas do cotidiano, carregadas de dramas da vida real é um prato cheio. O pano de fundo poderia ser vivido por qualquer um... e é justamente isso que me atrai.
 
É delicioso acompanhar as personagens principais se desnudando nas entrelinhas da análise dos livros mais famosos de Jane, muitos dos quais viraram filmes ("Persuasão", "Razão e Sensibilidade", "Orgulho e Preconceito", "Emma"). Por óbvio, cada qual analisa o romance em pauta sob a ótica de sua próprio vida, seus próprios sonhos e fracassos.
Contagia presenciar o amor nascendo aos poucos, sem pressa, cada qual dançando
em ritmo próprio, ao som dos mais variados sentimentos. E quando finalmente o casal acerta o passo, e acontece o tão esperado beijo, você vibra junto, não pelo aspecto sexual da cena, mas porque ele simboliza o coroamento de uma espera sadia. E aquele beijo desejado fala mais do que mil palavras... é o momento em que a boca, o coração e a alma finalmente se alinham. Numa época de amores enlatados, com prazo de validade, essa raridade acaba encantando.

É curioso observar que os personagens mais travados, que se guardam a sete chaves, que morrem de medo de se apaixonar, de se envolver, de mostrar a própria agressividade, acabam encontrando conforto nos encontros, e desabafam por via indireta, através de comentários cheios de perspicácia acerca do romance do mês, misturados, é claro, com uma boa dose de realidade e sentimentos represados. Os debates na verdade, são uma forma de terapia em grupo perfeitamente segura, porque no final das contas, ninguém se revela por inteiro, cada qual se esconde atrás da narrativa fictícia do mês.

Nunca a ficção adquiriu contornos tão reais. O filme demonstra como o medo cria entulho. E revela que esse lixo que deveria nos proteger, também nos impede de viver e de interagir com o mundo de sentimentos que está aí latente, esperando não apenas pelo nosso toque, mas, principalmente... pela nossa atenção.
Viajando pela vida dos personagens, é possível observar que os maiores abismos são criados justamente entre as pessoas que mais se conhecem e se amam.... aquelas que estão há tanto tempo do nosso lado que nem mais as enxergamos. Na era da tecnologia e facilidades, se algo quebra, a maioria  das pessoas simplesmente joga fora e compra outro melhor e mais moderno. Ninguém mais quer perder tempo consertando. Infelizmente, essa impaciência e imaturidade, passou também para a área dos relacionamentos: se o outro não é perfeito... se ele erra... se não é exatamente do jeito que sonhamos um dia...  melhor trocar logo, partir para outra (ou outras)... para que perder tempo? Os seres humanos estão se tornando descartáveis.

Por sua vez, a traição, um dos fantasmas que assola os relacionamentos modernos, é tratada com uma candura cruel. A história é clássica. A mulher ama o marido. O marido ama a mulher. Mas, cada um se arrasta pela vida isolado em seu próprio universo de carência, incapazes de estender a mão para o outro. Até que um cede as tentações do mundo, e resolve procurar emoções que sejam capazes de suprir o vazio que congelou todos os sentidos. A sequência de cenas que demonstra que antes da consumação da traição há um minuto de consciência, em que é possível decidir se vale mesmo a pena seguir em frente e arriscar, é de tirar o fôlego. Afinal, por quanto tempo a aventura vai conseguir soprepujar a realidade?   

Os diálogos do filme são inteligentes, dúbios, simples
e ao mesmo tempo carregados de uma complexidade peculiar.
Porque, afinal de contas, relacionamentos são complicados. Sejam eles entre um homem e uma mulher; uma mulher e outra mulher; pais e filhos; amigos; amantes. A medida que a convivência avança, corações são quebrados; a confiança é partida; elos são desfeitos; defeitos são exaltados; dúvidas são plantadas. Mas, por outro lado, uma explosão de emoções lapida com cores a vida de cada um ; sentimentos lavam a alma; corpos se abraçam; dores são compartilhadas; alegria são multiplicadas; lembranças são criadas e laços são restabelecidos.

E no final não apenas do filme, mas da própria história de nossas vidas, pouco antes de começar a passar os créditos, a gente desvenda o grande enigma, e descobre que o grande mal da humanidade... que o que todo mundo no fundo quer... é ser valorizado... é ser cuidado... é ser amado. Porque é isso que movimenta a roda viva da existência... e faz tudo valer a pena!



O Clube De Leitura De Jane Austen (Trailer) - LEGENDADO

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Dualidade do amor

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 26.1.09

Fácil é amar no princípio da fantasia... quando tudo é novidade, surpresa e desafio... quando as qualidades do outro despontam no horizonte de nossos sonhos com seu brilho fugaz.
Difícil é amar quando o imaginário cedeu lugar à realidade...  quando o mofo da rotina ameaça o frescor do romantismo... quando os defeitos deram o ar de sua graça e adentraram imponentes no cenário do relacionamento.

Fácil é amar no meio da algazarra da paixão, onde olhares enamorados, carícias inesperadas e confissões derretidas inundam a paisagem dos corações.
Difícil é amar no silêncio... quando não há certeza se o amor enviado encontra eco no seu destino.

Fácil é amar flutuando, tocando as nuvens do devaneio.
Difícil é amar com os pés bem fincados no chão, de mãos dadas com a verdade e o respeito.

Fácil é amar quando um sorriso ilumina a face do outro, e podemos identificar cada traço daquele rosto que nos encanta.
Difícil é amar quando nuvens negras de sofrimento apagam o rastro dos lábios, extinguindo a luz do olhar, e deixando-nos a deriva num mar de sentimentos revoltos.

Fácil é amar um coração aberto, que despeja amor aos quatro cantos, que suplica por afagos, que transpira saudade e contentamento ao simples som de nossa voz.
Difícil é amar um coração fechado a sete chaves... perdido em sua própria dor... cravado de labirintos fatais... surdo a nossos apelos apaixonados.

Fácil é amar no verbo.
Difícil é amar na ação.

Fácil é amar nos encontros esparsados, onde cada minuto tende a ser aproveitado como o único, pois o reencontro é sempre incerto... onde o perfume exala dos poros, a roupa realça o melhor da forma, a maquiagem colore a face impecável e as máscaras embelezam os recônditos sombrios da personalidade.
Difícil é amar no cotidiano, onde declarações se misturam com o excesso de realidade que o ritmo tresloucado da vida imprime... onde o suor aniquila a doçura do aroma, o salto alto dá lugar à pantufa e as máscaras restam corroídas pelo detergente, sabão em pó e água sanitária.

Fácil é amar quando todas as setas apontam para um futuro seguro.
Difícil é amar quando as bifurcações da dúvida apagam qualquer vestígio do porvir.

Fácil é amar na presença, quando os corpos falam uma linguagem própria, dispensando palavras.
Difícil – e dolorido – é amar na ausência, quando o grito do silêncio machuca os ouvidos do espírito, e a falta de toque enrijece o coração.

Ah... o amor!
Tantos poetas se embriagaram em seu néctar...
Tantos corações foram arrasados por seus humores...
Tantos outros foram elevados por suas virtudes...
Em uns desperta o medo...
em outros, o gozo...
Namora em declarações escancaradas e silêncios reconfortantes... 
Se fortalece no comprometimento mútuo dos corações e na liberdade dos espíritos...
E assim vive...
de facilidades...
de dificuldades...
se alimentando da dualidade que se esconde na alma de cada um.

Não poderá jamais ser definido por meras palavras,
porque a mortalidade não o alcança...
muito pelo contrário...
o macula com sua definição de fim!

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Crônica de um final feliz

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 22.1.09
Meu querido amigo Sérgio deixou um comentário no post anterior e foi impossível não lembrar dos velhos tempos em Joinva City. Minha época de paixão pelo cinema (bom, isso continua, só ando mais selectiva - leia-se chata -), FO´s, dataflex (eca!), bites e bytes. Como sempre acontece quando bate a saudade, a gente vai fuçando aqui e ali em busca de vestígios daquela época que sempre nos traz contentamento quando revivada na memória.
Acabei (re)encontrando esse texto que escrevi em agosto de 1999, e que agora compartilho. É o lado bom da nostalgia...
E, o que me deixou muito feliz, é que
depois de uma década, apesar de todos os percalços, de todas as reviravoltas que ocorreram na minha vida, das cicatrizes, de ter mudado de cidade e de profissão, dos cabelos brancos que já dão os ares da graça... eu CONTINUO acreditando!


Crônica de um final feliz.

Hoje ao ler uma matéria sobre a vida de uma garota de 14 anos, pude finalmente encontrar subsídios para defender a minha então "tese" de um final feliz.
Na primeira vez que assisti o filme Cidade dos Anjos, somente não chorei mais no cinema para não passar vergonha. Quando assisti novamente, desta vez em casa e longe dos olhares dos cinéfilos, pude deixar fluir todo o meu estoque de lágrimas, chegando facilmente aos soluços copiosos. Me lembro perfeitamente de ter ficado indignada com o final do filme. Ora, eu queria um final feliz, nada mais justo, com direito a casamento, juras de amor e um casal de filhinhos (parecidos com o Nicolas, claro). Todas as pessoas que então cruzaram meu caminho, e com as quais compartilhei minha indignação, basicamente me responderam de forma uníssona, que não podia haver outro final, senão seria muita água com açúcar, ou seja, o filme seria fantasioso demais (como se um anjo com a cara... o corpo.... e tudo mais do Nicolas Cage se jogando de um prédio e aparecendo todo carente pedindo cuidados fosse uma cena muito comum..... ora, o meu anjo da guarda, do jeito que dou trabalho, não pularia nem de um tijolo por mim :-) - (brincadeirinha viu Ariel meu amigo).

Pois bem, hoje li na
revista Seleções, a história de Megan, uma jovem de 14 anos, ativa, simpática, com um rosto angelical e um dom magnífico: ela era um super cupido. Quando colocava os olhos em duas pessoas, ela via algo mais, e no final, as pessoas, antes estranhas, se tornavam amores eternos. Os amigos e parentes afirmaram que Megan nunca errava; e principalmente, seu lema era: nunca desistir!!! Pois bem, encurtando drasticamente a matéria, Megan estava esquiando com amigos, quando ao parar na subida de uma montanha, começou a deslizar para trás, e ante a pergunta entre gargalhadas "que eu faço pessoal", acabou caindo de um desfiladeiro e desencarnando. Os pais resolveram doar os órgãos de Megan. Um dos órgãos foi para Brian; o outro para Susan. Dois desconhecidos até então, de cidades distantes, com um único ponto em comum: ambos estavam a beira da morte e foram salvos por um pedacinho de Megan. Os dois voltaram a se encontrar num congresso sobre doações de órgãos. De lá passaram a ser amigos; hoje são noivos, com casamento marcado e distribuindo felicidade. E os pais de Megan, ao verem ambos pela primeira vez juntos, entre lágrimas juraram que sentiram a presença da filha, com seu sorriso singelo a dizer: "Viu mãe! Eu sabia! É só não desistir!". Se esta história fosse um filme, a maioria das pessoas a achariam água com açúcar. Fantasiosa demais. Mas esta é uma história verídica, como tantas outras que nos passam despercebidas.

Se eu dirigisse o filme Cidade dos Anjos, ambos morreriam velhinhos, abraçadinhos, trocando juras eternas de amor, naquela mesma praia em que os anjos se encontravam para ouvir o pôr do sol. O coração de seus corpos simplesmente parariam de pulsar. Mas o coração de suas almas, pulsariam eternamente.

Podem me chamar de sonhadora. Mas eu prefiro acreditar. Quando era criança, acreditei em Papai Noel e coelhinho da Páscoa. E com certeza fui muito feliz. Hoje, um pouco "maiorzinha", acredito em anjos, duendes e finais felizes.

E na próxima vez que assistir ao filme Cidade dos Anjos, vou parar a fita na cena em que ambos estão juntos, abraçados, curtindo aquela paisagem bucólica, sentindo a presença um do outro, comungando com Deus e a natureza, entrelaçados de corpo e alma. Porque eu acredito que isto possa acontecer. Pessimistas de plantão me desculpem. Afinal, a probabilidade de um final feliz é tão grande quanto o fato de a Meg Ryan morrer ao bater de "bicicleta" numa "Scania" no "meio do nada". Me poupem. Se isto é aceitável, por que os dois serem felizes é utopia? Por que será que o ser humano tende sempre a acreditar com mais facilidade na pior hipótese? Talvez por medo de sofrer, pois afinal se você sempre esperar o pior, o que vier é lucro. Pois eu lhes digo de carteirinha: quem espera sempre o pior, quando o melhor acontece, não sabe nem o que fazer! E deixa, então, a alegria escapar pelos dedos....

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Caminhar cedo revigora

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 19.1.09

Todo mundo sabe que a globalização está cobrando seu preço. Corremos cada vez mais atrás do prejuízo. São cursos de especialização para nos mantermos ativos num mercado feroz e competitivo. Hoje, não mais basta uma pós-graduação. Temos que fazer mestrado, doutorado e pós-doutorado. Não são poucas às vezes em que estamos correndo, mais por força do hábito, do que realmente por perseguir algum objetivo. Ficar parado, hoje em dia, gera culpa!

E, como não adianta a mente estar presa numa máquina que não funciona direito, temos que manter o corpo em forma. Revistas, médicos, especialistas, todo mundo alardeia que, além de uma alimentação balanceada (não tem erro: tire tudo o que é gostoso do cardápio!), exercícios físicos são vitais para nos manterem no páreo. E, salvo melhor juízo, o "crème de la crème" parece ser a tal caminhada. Se for de manhã cedo então, o efeito é garantido pelo PROCON. Como moro na ilha da magia, e tenho disponível um parque maravilhoso no meu próprio bairro, praticamente a beira-mar, beira-ponte e beira-sol, fui influenciada por meu namorado amado a compartilhar desta natureza que, pelo que ele diz, nos convida ao deleite.

Como é difícil sair cedo do escritório (já disse que sou advogada, estressada e sedentária?), decidimos que o melhor (???) horário seria: acordar as 06:45h, e sairmos de casa as 07:00h, caminhando até as 08:00h (eu devia estar possuída quando aceitei esses termos). Plano maravilhoso (na teoria!).
Quem me conhece um pouquinho, sabe que não sou uma pessoa matutina. Apesar da tentativa de todas as novas pessoas que aportam na minha vida (que ainda não conhecem meu passado pregresso) de tentar violar o meu sagrado relógio biológico, nunca fui adepta de acordar cedo... e nunca serei!

E, ao que tudo indica, o universo adora brincar comigo, porque colocou ao meu lado, uma pessoa deliciosamente matutina. Meu amor já acorda na pilha, cheio de sorrisos, piadas e beijos. Uma tortura para alguém que não consegue pegar no tranco antes das 10:00h. Daí começa o suplicio. Ele, todo empolgado, nem bem caminhou 02 semanas, e já quer alterar o horário: “que tal acordar as 06:15h e sair as 06:30h?”. NEM MORTA! Defendo meus minutos de sono com o mesmo afinco que o BOPE: é matar ou morrer! Acordo no milésimo de segundo exato e, absurdamente necessário. Se precisar, fico sem comer, sem beber, sem qualquer coisa que me tire antes do tempo do convívio da minha amada cama.

De pé (bem, maneira de dizer...) as 06:45h, inicio o ritual mecânico de colocar um agasalho e descer para irmos ao Parque. Note: o fato de eu caminhar, não necessariamente significa que estou acordada. Será que é tão difícil assim de entender essa máxima? O percurso da minha casa até o parque, já é uma caminhada e tanto (pelo menos para mim). Agora imagina fazer esse percurso ao lado de uma pessoa que mistura traços da “formiga atômica” com trejeitos do “grilo falante”? Meu ♥amor♥ (já disse que adoro você hoje?) vai tagarelando e pulando, todo eufórico e feliz, desde a saída do apartamento, até a primeira volta na pista (onde, então, nos separamos). E fala dos pássaros que cantam (ahhh, se eu tivesse um estilingue... &%@@*??^), do sol maravilhoso que começa a despontar (maldita previsão do tempo que jurou que iria chover! &%@@*??^), do céu azul (onde está a trovoada quando se precisa dela? &%@@*??^). E, tudo que eu consigo pensar, são maneiras e maneiras perversas e cruéis de fazer uma pessoa ficar de boca fechada. O tal do “microondas” usado no filme “Tropa de Elite” é fichinha perto do meu arsenal criativo!

Mas, tudo bem! Tudo pelo amor e saúde! Caminho uma hora, no MEU ritmo (enquanto ele corre umas 10 voltas eu me arrasto por 2... bem, 1,5). Voltamos para casa, e depois de um belo banho, nos colocamos rumo ao trabalho. Agora vem minha pergunta: onde diabo está a tal disposição alardeada? Tudo que consigo sentir é sono. O tico e o teco estão amortecidos, a tal ponto de eu jogar a bala no lixo e comer a embalagem. Por conta deste quadro fatídico, faço uma paradinha estratégica antes de iniciar o batente. Ato contínuo, chego no escritório e todo mundo nota que estou animada, ativa, numa felicidade só.

- Nossa Sheila, a caminhada está fazendo milagres!

Ao que respondo não escondendo o entusiasmo: - Amém!

Mal sabem eles que o que injetou ânimo neste corpo cansado, foi uma espumosa, irresistível, saudável, incomparável xícara de café expresso, que não apenas exercita todos os sensores do meu corpo, como ainda ativa cada neurônio da minha mente! O exercício sublime de levantar uma caneca fumegante até os lábios, deveria ser indicado pelo Ministério da Saúde.

A caminhada matutina, sentindo a brisa do mar, aspirando sol por todos os poros, apreciando as flores e pássaros, por certo revigora não só meu corpo, mas, também, minha alma. Por isso mesmo, agradeço a Deus pela natureza: principalmente, pelo cafeeiro!
Amém!

PS1: Esse texto eu escrevi na nossa fase saúde. A do meu amor durou alguns meses. A minha? Bom, acho que umas 2 semanas, sendo que eu caminhava 1 dia, e ficava de molho por 2 ou 3, na tentativa de me recuperar :-)
PS2: Parei de caminhar, mas continuo levantando copos de café expresso diariamente :-)
PS3: Essa preguiça está novamente com os dias contados. Resolução de ano novo: voltar a caminhar! (afeee... essa resolução me acompanha há décadas... sai do meu pé chulé :-).



Le Café

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Que venha 2009

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 15.1.09

Ando mais introspectiva do que de costume. O estalar que de vez em quando quebra o silêncio que se instalou no meu ser, revela um movimento que insiste em cutucar lugares até então estagnados. Confesso, mudanças me deixam alerta, inquieta, desconfiada. Gosto do aconchego das coisas que me são conhecidas. A rotina é um lugar seguro do qual poucos tem coragem de abrir mão. Entretanto, apesar do pavor, nunca neguei mudar a direção dos meus passos, quando o caminho até então trilhado já não levava mais a lugar nenhum. Só que tenho um ritmo próprio. Qualquer tentativa de reduzir ou acelerar minha cadência pessoal será traumática.

Mas, o ano novo traz em seu bojo a promessa de renovação. O cheiro da expectativa, de novas possibilidades, do recomeço, acaba invadindo as narinas de nossa alma. E acabamos embriagados pela vontade de fazer diferente.
Não fiquei imune ao (in)consciente coletivo. Me rendi ao clichê das resoluções de final de ano. Na correria do dia-a-dia, nem percebemos que alguns rituais acabam se incorporando a nossa personalidade.

Assim sendo, aproveitei o recesso para tirar férias de mim mesma. Fui mera expectadora da minha mente, lembranças, sentimentos. Deixei fluir dentro de mim todo tipo de excessos. Me abstive de qualquer julgamento e ouvi atentamente as reclamações, os sonhos e as dúvidas de cada faceta que minha personalidade ora esconde, ora revela. Sinto nas minhas entranhas que 2009 será um ano decisivo na minha vida. Talvez, por ser o ano do amarelo, do sol, do girassol, de tudo que reluz, energiza e contagia.
Agora, retomando aos poucos o controle que me é tão peculiar, aproveito para registrar os desejos que povoaram meus dias de reclusão psicológica, e que esperam encontrar neste novo ano que se agiganta rapidamente, solo fértil para germinar.

[  ] Quero renovar minha carteira de habilitação, e declarar expirado o medo de assumir o volante da minha própria vida.
[OK] Quero ousar mais, largar mão do cor-de-boca e usar batom vermelho, nem que seja por um dia.
[  ] Quero resolver os meus problemas reais e ignorar aqueles que só existem na minha imaginação.
[  ] Quero abusar do perdão, me lambuzar de amor e cultivar mais o otimismo.
[  ] Quero rever alguns filmes que me inspiraram, emocionaram ou me fizeram acreditar que o mundo pode e deve ser melhor.
[  ] Quero valorizar quem se comporta de forma respeitosa na minha presença. E, mais ainda, àqueles que agem da mesma maneira na minha ausência.
[  ] Quero me focar mais nas qualidades e relevar os defeitos de qualquer um que cruze o meu caminho.
[  ] Quero tirar o pé do freio e esgaçar as portas do meu coração, sem temor. Muitas já foram as desilusões, mas, por certo, maiores foram as alegrias. Meu coração guerreiro já sofreu, já foi pisado, já foi partido, mas, nunca desistiu. Sempre se reinventou através dos caquinhos que a decepção largou para trás. E a cada mosaico criado pela experiência, adquiriu novas nuances.
[  ] Quero confiar mais na minha intuição.
[  ] Quero dar mais importância à ação e menos ao verbo.
[  ] Quero cuidar do meu corpo com o mesmo empenho que dedico a minha alma.
[ ] Quero ser mais paciente com todos que me cercam, mas, especialmente, comigo mesma.
[  ] Quero voltar ao convívio dos amigos que fazem parte das minhas orações, tirando-os da lembrança e reintegrando-os à minha realidade.
[  ] Quero encarar o medo de frente e dizer que muito aprendi através dele, mas que é hora de cada um seguir o seu próprio caminho.
[  ] Quero seguir me emocionando, diariamente, com a beleza e magia desta ilha abençoada que hoje chamo de lar.
[  ] Quero colocar a minha vida em ordem, começando pelas coisinhas simples, e avançando até as mais vitais.
[  ] Quero voltar a ler, com o único compromisso de entreter o meu próprio espírito.
[ ] Quero voltar a escrever sem me preocupar com a velha gramática, muito menos com a nova. Ao invés de caprichar na pontuação, quero carregar no sentimento.
[  ] Quero fazer as pazes com alguns fantasmas que ainda assombram o cenário da minha existência.
[  ] Quero viver tão intensamente quanto tenho sobrevivido.
[  ] Quero criar condições na minha vida que me permitam ter um cachorrinho (filhote de labrador com golden retriever).
[  ] Quero falar dos meus sentimentos na hora em que eles estiverem aflorando, e não mais ignorá-los e enterrá-los dentro de mim.
[  ] Quero ter foco, dar atenção a cada tarefa, e não tentar fazer tudo ao mesmo tempo.
[  ] Quero curtir mais a minha família.
[  ] Quero continuar me apaixonando várias vezes pelo geminiano que entrou aos pouquinhos na minha vida, e hoje já instalou morada no meu coração.
[  ] Quero enfim, nunca perder a vontade de continuar querendo... por que, no final das contas, é isso que me alimenta, me instiga, me move, me faz crescer apesar de todas as dores que a maturidade traz consigo.

E nesta roda-viva que nos engole diariamente, quero me redescobrir a cada momento, e encontrar no rosto que me fita no espelho, a minha fonte inesgotável de amor, força e paz.




Mensagem de Fim de Ano 2008-2009

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