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Página em branco...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 20.6.09
Não mais desviei o olhar quando a página em branco me encarou, mal disfarçando sua ânsia incontida por palavras.
Pousei carinhosamente minhas mãos sobre o teclado, e deixei que meus dedos deslizassem num ritmo próprio, tresloucado o suficiente para impedir minha mente de acompanhá-los.
Enfim, livres para dar vazão as suas próprias memórias.
Acompanhei sua dança como mera espectadora, sem planos, mapas, correções ou expectativas.
Sem a mínima idéia do conteúdo daquele texto que estava se formando, nascendo aos pouquinhos sem se importar com a minha presença.
Um sentimento familiar me invadiu, e lágrimas tímidas umedeceram meus olhos, sem entretanto rolarem pela minha face.
Era uma festa particular sem direito a testemunhas.
Reconheci de imediato a emoção do reencontro com aquela parte de mim que sempre tem o condão de colocar em verso o impronunciável, traduzir o indecifrável, relembrar o imemorável.
A parte de mim que mais sofre com minhas ausências do mundo real, com aqueles afastamentos inevitáveis, frutos de minhas visitas furtivas aos meus desertos internos.
De tempos em tempos sou abraçada por longo período do silêncio, encharcado de significado. Um silêncio morno, envolvente e enriquecedor. Um silêncio que jamais me deixa só ou permite que a tristeza se acomode. Muito pelo contrário. É o momento de calmaria que sempre se instala depois de alguma devastação causada por tempestades que a experiência impõe ao longo da jornada.
Muito lutei contra essa introspecção. Hoje, aos poucos, aprendo a respeitar minhas estações. Curtir meus verões, respeitar meus invernos, amar minhas primaveras, e, sobretudo, aceitar a poda dos meus outonos. Talvez esteja, enfim, amadurecendo.
Apesar do descanso reparador vital para meu bem-estar, é muito bom sentir novamente aquele rebuliço de palavras ecoando pela mente, tentando fugir por todos os poros, se digladiando entre verbos, adjetivos e substantivos, e explodindo em gozo diante da frase perfeita.
A modernidade nos atropela e nossa atenção é quase que instintivamente atraída para fora.
Diante de nossa relutância em cuidar dos jardins da alma, a própria vida se encarrega de frear.
É quando chocamos de frente com algum obstáculo que nos desfragmenta, nos reduz a meros caquinhos espalhados pela calçada da existência.
Só assim paramos, e somos forçados a prestar atenção a cada ínfima parte de nós. No intuito de restaurar o mais rápido possível o movimento, nos focamos no estrago causado pela nossa falta de atenção. E assim, jogamos fora o que não mais nos pertence, colamos pedaços desiludidos, lustramos lascas empoeiradas pelo esquecimento, olhamos a mesma imagem por diversos ângulos, até que finalmente enxergamos a sua verdadeira face.
Apesar de todo o crescimento que esses momentos nos trazem,
é sempre muito bom estar de volta,
plenamente
... inteira!

"A gente cresce sempre, sem saber para onde"
(João Guimarães Rosa)

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Romeu e Julieta...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 5.4.09
"Aquele que foi ferido pela cegueira, não pode por isso esquecer que perdeu o precioso tesouro da sua vista...
Tu não podes ensinar-me a esquecer."
(William Shakespeare , Romeu e Julieta)



Romeu, o tempo te levou para longe e a impossibilidade de nosso amor vingar na terra infértil da vida atrofiou meus sentimentos. Sigo caminhando diariamente entre rostos desconhecidos sem conseguir me encontrar. Conto os minutos para a chegada da noite, quando então, na calada dos sonhos posso me jogar sem asas ao teu encontro. Guardo no baú das lembranças, preciosidades que me sustentam a medida que tua falta vai minando minhas forças. Um pote com o sabor adocicado dos teus beijos. Um vidro com o brilho imaculado dos teus olhos a me desvendar a alma. Uma caixinha com melodias apaixonadas. Música emanava do meu corpo ao dedilhar de tuas mãos, tal qual uma harpa virgem que revela notas inusitadas em seu primeiro concerto solo. Desesperada, te procurei em outros homens. Mas, na ânsia da busca, também me perdi. Fui reduzida a um instrumento incapaz de produzir qualquer tipo de som, além de um debilitado lamento. Deixei de viver no exato segundo de nossa despedida. Hoje apenas sobrevivo, me debatendo num mar monocromático de memórias coloridas, e desejando me afogar em teus abraços. Dentro de mim ecoam a voz da razão e da emoção. Uma, não mais suporta a privação do teu sentir, e exige que eu te implore para jogar tudo para o alto, esquecendo de crenças e convenções que só servem para te privar do meu amor. A outra, sabe que tal ato tresloucado te quebraria em pedaços, e nem mesmo meu amor sincero seria capaz de juntar os caquinhos. E o silêncio por fim revela a vontade suprema do sentimento verdadeiro. Meu amor te quer inteiro! Nem que para isso esteja condenado a arder no fogo da tua ausência... para todo o sempre! Até que a morte, enfim, nos una...
Sempre tua,
Julieta

Julieta, meu amor. A saudade corrói meu peito... aquele mesmo que outrora batia em descompasso a simples menção do teu nome. Sinto falta de nossas conversas intermináveis sobre o tudo e sobre o nada, que sempre acabavam numa única conclusão: somos um. Duas metades separadas pela ironia mordaz da existência, e condenadas a viverem incompletas.
A tua ausência na minha vida é marcada pela presença, e é neste paradoxo que me encontro preso. É teu rosto emoldurado por um sorriso que vislumbro quando meus olhos encontram a claridade do novo dia que inicia. É a tua imagem que embala meu corpo cansado de tanto sofrimento quando a noite desce com seu manto. Tu derramastes teu amor sobre mim, e ele penetrou cada célula do meu ser , inundando os porões do meu coração até então secos. A essência que guardo a sete chaves no meu âmago é tua. As vezes mergulho no silêncio dentro de mim só para te encontrar. Fui designado a ser teu desde o meu primeiro sopro de vida. O destino está com seus dias de vitória contados. Quando o doce beijo da morte selar meus olhos, e eu finalmente puder me despir desta veste carnal, serei teu e somente teu... livre em espírito. A mortalidade de nosso corpo abrirá a cela que hoje aprisiona nossa alma e libertará, enfim, nosso amor... Teremos então, a eternidade a nossos pés...
Romeu

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...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 27.3.09

Quando a realidade nos tira o chão
Só nos resta abrir as asas da imaginação
E voar...
Por certo, quando aterrissarmos
Nossos pés estarão mais firmes

Foto by Sheila Cristina Andrade Scheibel - Praia do Santinho/Florianópolis/SC - 23/03/2009

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Descalça...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 24.3.09

Às vezes é preciso despir a roupa da preocupação
E andar descalça na areia dos sonhos
Sentindo na planta dos pés
A aspereza do permitido
Roçando de leve a consciência
Seduzida por segundos
Pela maciez do proibido
E neste paradoxo de possibilidades
Deixar marcas indeléveis
No exato limite do aceitável
E quando o torpor da fantasia invadir o corpo
Jogar-se entregue nas ondas do destino
Ignorando a bandeira vermelha do medo
Deixando que o mar da vida lave a alma encardida pelo sofrimento
E devolva a leveza da esperança perdida
São esses pequenos goles de silêncio
Que nos permitem atravessar, ilesos, os desertos da existência

Foto by Sheila Cristina Andrade Scheibel - Praia do Santinho/Florianópolis/SC - 23/03/2009

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Mar...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 23.3.09

Hoje eu me entreguei às ondas do mar
E em suas águas deixei meus medos
Na areia macia firmei o propósito
De me afogar nos meus vazios
E voltar inteira

Foto by Sheila Cristina Andrade Scheibel - Praia do Santinho/Florianópolis/SC - 23/03/2009

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Filhós...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 21.3.09

Hoje pela manhã, enquanto comia mecanicamente uma bolacha de chocolate mergulhada no café preto, fui atingida por um momento de nostalgia. Minha memória foi ativada pelo cheirinho do café ou, talvez, pelo tilintar da bolacha na minha boca. De repente, uma série de lembranças adoçaram o meu desjejum.
Meus pais sempre cuidaram da alimentação de seus rebentos com afinco. Nossa mesa tinha o controle de qualidade afiado de minha mãe. Em sua maioria, os quitutes, massas, sucos naturais, geléias, sobremesas, sanduíches, eram feitos pelas mãos maternas. Não escapamos do terrível bife de fígado para manter a anemia longe. Muito menos do fortificante “Emulsão de Scott” com seu indescritível sabor de óleo de fígado de bacalhau. E como esquecer do “leite de magnésia”? Não tenho a menor idéia de sua real finalidade. Mas nunca esqueci seu gosto horrível.
Ignorando toda esta dinâmica, existia o tão esperado final de semana. Naqueles dois dias inteiros algumas regras eram quebradas. Com o devido comedimento, é claro. E hoje, analisando meu passado como um todo, percebo que esses pequenos detalhes do cotidiano se sobressaem, como feixes de luzes coloridas, que dão uma nuance toda especial a minha infância.
Sábado pela manhã era o dia em que comíamos bolacha São Luiz ou "filhós" de chocolate. Aliás, vou me permitir abrir parênteses. Só depois de adultos eu e meus irmãos descobrimos que o nome “científico” do "filhós" era "wafer". Não lembro quem foi que nos ensinou essa pérola. Provavelmente, uma de nossas avós, que, por sinal, são uma história a parte. Mas, até hoje esse fato rende gostosas gargalhadas. Perdemos a conta das vezes em que declaramos, em uma roda de amigos, nossa adoração pelo “filhós”. Cada qual tem sua própria história de vexame particular, caras espantadas, pegações no pé. Mas, hoje lembro com carinho dessa particularidade. É uma piada seleta, com código próprio, e que pertence exclusivamente ao nosso universo familiar.
Era um pacote apenas, dividido religiosamente entre nós três. Lembro como se fosse hoje. Meu irmão abria a bolacha recheada São Luiz, e, primeiro, comia o recheio. Depois, a parte de cima, e, por fim a parte de baixo. Já o "filhós", nós três adorávamos abrir fileira por fileira, apreciando o recheio de chocolate, e depois sentindo o crocante da casquinha estalar na boca. Qualquer artifício que prolongasse aqueles momentos de prazer era usado com sabedoria.
Depois deste manjar dos deuses, era a hora de acompanhar nossos pais ao centro da cidade, onde eles faziam compras, pagavam contas, enfim cuidavam dessa parte burocrática da vida adulta, que pouco nos interessava na época. E nós acompanhávamos, ora de cara amarrada, ora resmungando, ora nos divertindo com as vitrines coloridas e seus apelos. Entretanto, a promessa do meio-dia sempre tinha o condão de nos manter na linha. Claro, antes de fazer um lanche, passávamos na inesquecível banca "Casa das Revistas", onde ficávamos fascinados com a quantidade de revistas e livros cheirando a novidade. E, óbvio, cada qual sairia de posse de seu gibi favorito (o meu era o Pato Donald). Dependendo dos compromissos de meus pais, íamos à galeria Marcos Grossenbacher, que entremeia duas grandes avenidas do centro de Joinville. E lá no meio do labirinto de corredores, entrávamos num boteco familiar, e comíamos uma deliciosa coxinha de galinha caseira, com um copo de mate ou, melhor ainda, caldo de cana. Agora, se a pedida fosse um “x-salada”, daí, por certo, a festa estava feita. Éramos só sorrisos na face – e maionese –.
Quando chegávamos em casa, recebíamos nossa cota-parte de uma barra de chocolate Garoto, ou, talvez, uma caixa de Bis devidamente dividida (preciso dizer que comíamos da mesma forma que o “filhós”?). E saboreávamos cada partícula daquela guloseima, lendo nossa mais recente história em quadrinho.
Depois de toda essa aventura, dormíamos ansiosos, aguardando o domingo, quando então acompanhávamos nosso pai até a "Churrascaria Familiar", onde aguardávamos pacientemente que os atendentes enchessem a marmita de alumínio, e principalmente, a enorme travessa de porcelana que já trouxéramos de casa. O caminho de volta para casa, com o carro recendendo aquele aroma inconfundível do churrasco da Familiar, era uma tortura a qual adorávamos nos submeter. Sentar a mesa e desfrutar do churrasco, molho e maionese (o resto não importava) acompanhado de um litro de coca-cola (outro luxo do fim de semana), era um ritual delicioso. Meus irmãos insistem em dizer que eu, aproveitando o fato de ser mais velha, forte e maior, sempre roubava a melhor parte da carne: o mignon. Eu prefiro acreditar que apenas estava no lugar certo, no momento exato – e com a faca correta nas mãos –.
No final da tarde, saíamos todos de carro, com o rádio ligado, passeando pela cidade, e conhecendo os caminhos, becos e atalhos que só meu pai conhece. E, como sempre, quando estávamos chegando perto da rua de nossa casa, choramingávamos para que nosso pai passasse reto e passeasse mais um pouquinho. Ele sempre passava.
Hoje vejo crianças pequenas se empanturrando de McDonald's e litros de refrigerante, de segunda a domingo, comendo chocolate hora sim, hora não, como se fosse água, tamanha a naturalidade, sem sequer ter noção do que é degustar alguma coisa. Atualmente, os pequenos ganham bonecas falantes e carros eletrônicos na Páscoa, afinal, chocolate perdeu a graça, pois está disponível o ano inteiro. É uma pena. A pressa da vida moderna, acabou por assassinar certos rituais, que são imprescindíveis para um desenvolvimento emocional saudável. São o divisor de águas entre a existência fruída detalhe a detalhe e àquela vivência engolida sem mastigação. A vida, por certo, está perdendo aos poucos seu inigualável e elaborado sabor, e virando fast food.
Claro que na época eu não enxergava isso. O que eu mais desejava era comer dois pacotes de bolacha São Luiz sozinha. E, todo dia! Por certo destilei minha birra juvenil por todos os poros. Mas, hoje, de posse de todas as facilidades que a modernidade coloca aos meus pés, reconheço que foram justamente esses limites impostos pelos meus pais, que fizeram toda a diferença, a ponto de transformar um simples "filhós" numa crônica recheada de lembranças, emoções e aromas. Que eu faço questão de saborear fileira por fileira, deixando o chocolate... para o FIM!

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Memórias de uma queixa...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 20.3.09

Tudo ia muito bem (obrigada!) no planeta do sedentarismo, país do ócio criativo, cidade da preguiça organizada. Até que uma reportagem capa da revista IstoÉ, intitulada "Os benefícios de correr" (ei... tudo na vida tem os seus prós... E os seus contras... unf...) abalaria o seu mundinho perfeito. Ela sabia que não estava ficando mais nova com o passar do tempo. Percebeu isso com o surgimento, de uma hora para a outra, de doenças esquisitas, metidas a besta com seus nomes pomposos. Algumas, inclusive, eram as preferidas dos médicos quando nenhum exame acusava nada; aliás, em sua maioria, os doutores tinham uma única certeza: se não é a moléstia X, nem a Y, nem a Z, então, bom, "só pode" ser a X1S67-A (de onde ela veio, e o que e pior, para onde vai, entretanto, é outra história cheia de suposições). Não podia mais tomar leite porque sofria de intolerância a lactose (mas eu mamei no peito, uai...). Só que o café preto tinha a tendência de irritar o intestino - SII - (será que intestino tem tpm?). Subir escada deixou de ser uma brincadeira prazerosa para transformar-se em absurda tortura (os vizinhos sempre sabiam quando ela chegava em casa, pois vinha gemendo e reclamando desde o primeiro degrau, até o último). Enfim, a realidade não estava sendo nem um pouco piedosa com ela, e o espelho não negava: celulite na floresta amazônica e arredores, gordurinha no planalto central, estrias no nordeste e sudeste, enfim, coisas sobrando em todo território nacional...
Ela sabia também que àquela famigerada reportagem colocaria em xeque todas as desculpas esfarrapadas até então apresentadas ao seu amado namorado para evitar qualquer tipo de caminhada:

- Amor, vamos caminhar hoje?
- Ahhh, não vai dar porque tenho que lavar roupa.
- Ué, lava depois que a gente voltar...
- Ahhh, adoraria. Mas é uma mancha de café misturada com a seiva de jabuticada silvestre, e tem que ser lavada exatamente às 18h38m, porque a conjuntura da linha do sol pegando no solado da lua favorece o esbranquiçamento do tecido feito de algodão puro produzido no leste da Malásia...

- Amor, a roupa está lavada... vamos caminhar hoje?
- Ahhh, não vai dar porque meu pai pode ligar.
- Ué, vai ficar registrado no bina, depois você retorna...
- Ahhh, adoraria. Mas meu pai está passando por uma fase pós-terceira-idade extremamente caótica-sensível, e qualquer tentativa de falar comigo sem sucesso pode gerar uma crise exacerbada de rejeição acelerada pela ausência da minha presença na vida paterno-fetal...

Enfim, ela até tentou esconder a revista debaixo de uma pilha de inutilidades. Mas, não adiantou muito... o radar pró-saúde de seu namorado captou a palavra "saudável" com a mesma eficiência que uma mulher na TPM farejaria uma barra de chocolate disfarçada de laxante natural a milhas de distância.
Ele, na mais profunda inocência, perguntou:
- Você leu a reportagem amor?
- Anrã. Achei meio superficial, nem vale a pena perder seu... (tarde demais, ele já estava devorando a bendita)... tempo.... Aff...
- Superficial? Você achou superficial as 10 páginas seguidas de estudos, testemunhos, fotos, documentários, blá.. blá... blá... (ela nem ouvia mais nada... sabia que tinha perdido a batalha... intuia que a guerra também estava seriamente comprometida)

- E então amor, depois de ler esta matéria, vamos caminhar amanhã?
- Hummm... (bom, seria uma boa oportunidade para eu estrear aquela bermudinha azul, que combina com o tênis e a bijuteria que ganhei no natal...). Ahhh, claro amorzinho, saúde em primeiro lugar (será que tenho uma meia para combinar?).

E o amanhã, finalmente chega (e a porcaria da previsão do tempo estava errada, para variar... cadê a chuva??? e a frente fria???). Ela se arruma com esmero, e, contagiada pelo visual malhação, acompanha o namorado toda animada. Ele, preocupado, comenta que a corrente que ela estava usando, poderia atrapalhar na hora de correr. Ao que ela responde, solícita: - Que nada amor! (aff, me conhecendo, no ritmo lerdo que vou andar, a corrente não vai nem sair do lugar... poderia muito bem estar usando um cocar que também não iria atrapalhar meu... "ritmo"). E chegam no parque (caramba, de longe parece menor essa pista... afff).
E começa a maratona...

Volta 1:
- Aiiiiiiiiiiiiiiiiii meu amor, meu lindo, meu tesouro... uhuuuu... Foi uma benção essa reportagem chegar nas nossas mãos. Porque a vida é linda, o amor é belo, você me encanta, e o universo conspira para que os sonhos se realizem... e que delícia caminhar entre esses cachorrinhos lindos que brincam por aqui...
Daqui a pouco tempo vou estar correndo igual àquela moça loira simpática de agasalho vermelho... nooosssaaa, ela correndo daquele jeito e ainda tem fôlego para distribuir sorrisos... (e embalada pela liberação momentânea de endorfina por todos os seus poros, ela seguia saltitante pela pista de corrida, saudando o céu, o sol, os pássaros, o mar, enfim, a vida ma-ra-vi-lho-sa que se desenrolava ao seu redor... E ela inspirava o ar puro por seus pulmões virgens de exercícios, deixando as narinas absorverem aquele nectar dos deuses. Abria os braços de forma a poder abraçar todo aquele cenário benfazejo).
Volta 2: - Aiiiiiiiiiiiiiiiiii meu amor, meu lindo... uhuuu... Que coisa gostosinha que é essa tal caminhada. É só não andar muito rápido e respirar ao mesmo tempo. Olha só... a loirinha sorriu novamente... puxa vida,
que gente de bem com a vida (e ela continuava encantada, aspirando oxigênio e louvando aquele momento de encontro sagrado com a natureza).
Volta 3: - Aiiiiiiiiiiiiiiiiii meu amor... uhuu... Putz grila, daqui a pouco tropeço numa destas bolas de pelos que estão correndo soltos por aí. Se tiver que desviar mais uma vez, vou ligar pra carrocinha. Cachorrada chata, tá doido... Ahhh, não acredito que essa bisca loira-à-lá-blondor passou por mim de novo sorrindo? Fala sério? Só pode ser efeito de anabolizante... ela faz bem o tipinho mesmo com aquele collant vulgar (continuava caminhando, a passos, cada vez mais tropeços... mas evitava erguer os braços para não dar cãimbra... também fechou a matraca para economizar oxigênio).
Volta 4: - Aiiiiiiiiiiiiiiiiii... uhu... Olha aqui "meu filho", acho que precisamos repensar a relação. Cara, o que é que tu tem contra mim? Só te dou amor e compreensão, e é assim que me retribuis? Tentando me matar de forma lenta e dolorosa? Te acostuma com a celulite, porque ela é de estimação... e a aponevrose já veio de fábrica. Se eu não estivesse tão moída, quebrava os dentes desta loira-filhote-de-cruz-credo... está rindo de que a infeliz? Ela já não cozinha mais na primeira fervura... (E o corpo começou a responder de forma cadenciada.... a perna ameaçou fazer greve caso não fosse cumprida a risca o horário de descanso... os braços simplesmente paralizaram em protesto silencioso... o pulmão já não aguentava mais aquele ar puro todo... a boca seca clamava por uma coca-cola gelada... normal, pelo amor de Deus... me oferece a "zero" se quiser conhecer Jesus mais cedo).
Volta 5: - Aiiiiiiiiiiiiiiiiii... uhuiiiiiiiiiii...Vou queimar essa droga de revista em praça pública, ela é um perigo para a saúde dos incautos. Aliás vou acionar judicialmente por propaganda enganosa, afinal, ela alardeia que a prática da caminhada leva ao paraíso... só esquece de alertar que, primeiro, tem um estágio obrigatório no inferno. (E ela, ofegante... se arrastava na pista... E a tal da endorfina? A "en" deu no pé logo na segunda volta. Já a "fina" caiu dura na quarta. Só ficou mesmo a droga da dor... essa não arredava o pé... grudou feito carrapato. Aliás, ela tinha que escolher: ou respirava ou caminhava ou piscava, porque os três juntos era impossível).
Volta 6: - (...) ai... ui...

De volta ao doce lar (de onde, diga-se de passagem, não deveria ter saído), ela rasteja até o sofá e se entrega a exercitar os músculos de seu cérebro (esse tipo de exercício, sim, é inofensivo) Assim, pensando com seus botões (qualquer tentativa de levantar os botões poderia se tornar desastrosa), ela decide que não se deixará abater... afinal, não vai ser uma mísera dor insuportável em todas as fibras de seu ser, aliada a um intestino irritável estressado, sono, dificuldade para respirar, se mexer e raciocinar, que vai impedí-la de voltar a caminhar... afinal, como dizia a sábia filósofa Scarlett O'hara, amanhã é um novo dia (pena que ela terá que esperar a ligação do pai dela que quer saber, com riqueza de detalhes, a mandinga certa para se livrar da mancha de café misturada com essência de jabuticada silvestre... nossa... é o tipo de conversa que poderá levar meses... seu pai demora um pouco para entender...).

PS: Qualquer semelhança com o que aconteceu nesta semana, é mera coincidência...

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Rasgando o verbo nas entrelinhas...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 17.3.09


Quando criei este blog, não sabia ainda qual seria o rumo de seus versos.
O título, Yada... Yada... Yada..., retirado do sitcom "Seinfield", retratava fielmente esta incógnita...
Textos sobre o nada...
Mas, tudo na vida está em constante movimento
Até as sementes mais despretensiosas
Precisam de tempo para se desenvolver
Amadurecer...
Assim, a medida que os dias foram passando,
E a inspiração foi ditando as regras,
Pude finalmente tirar o véu do rosto
E revelar minha verdadeira face...
Descobri que o que me encanta mesmo
É rasgar o verbo em rompantes que só explodem nas entrelinhas
É colocar na mesma frase palavras estéreis que juntas destilam impacto
É navegar ora na superficialidade dos eventos do cotidiano
Ora na profundidade dos meus sentimentos mais arraigados
É desnudar minha alma sem precisar tirar a roupa das emoções
É esse impulso incontrolável que move meus dedos
E arrebata meu coração.
Muito prazer
Esta
Sou eu!


3

Foto...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 16.3.09

Há algo mágico na arte de fotografar.
Em fração de segundos adquirimos o poder de capturar,
com perfeição,
um momento ímpar.
Aquele acontecimento em específico,
nunca se repetirá com as mesmas
peculiaridades e nuances,
com os mesmos sorrisos e tonalidades,
com o mesmo sentimento realçado pelo flash.
Mas, enquanto estivermos de posse do negativo,
seremos capazes de reavivar o irreproduzível,
reviver o irresgatável,
eternizar o dissolúvel.
E, apesar do galope dos anos,
da modificação natural da paisagem,
da segregação dos elos,
do verão ter sucedido ao inverno infinitas vezes,
de todo flagrante harmonioso ter perdido a sintonia,
do pano de fundo ter desaparecido,
de todo conjunto fotografado estar absurdamente diferente.
Naquela foto amarelada pelo tempo,
tudo vai permanecer,
para sempre,
exatamente...
igual!

6

Brincadeiras...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 4.3.09

Gosto de me revelar através de frases elaboradas
Tanto quanto de me esconder nas entrelinhas
E nesta paradoxal brincadeira
Exposta de uma maneira velada
Vou me descobrindo...

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Amanhã...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 3.3.09

Acordou naquele sábado cheia de intenções. Abriu os olhos e espreguiçou-se vagarosamente na cama com lençóis de linho florido. Calçou os chinelos macios, evitou o espelho e seguiu para a cozinha. Abriu a geladeira e seus olhos pousaram no pedaço generoso de torta feita com uma espécie de suspiro com o famoso chocolate francês Valrhona, contendo ainda pedaços de nozes e castanhas fartamente acomodados na camada de mousse que finalizava esse doce pecado. Comprara a iguaria na noite anterior, pensando em saboreá-la na companhia de um delicioso café da tarde e um bom livro, degustados na varanda de seu apartamento recém adquirido. Não tinha a menor graça comer tal delikatessen na correria do café da manhã, preparado sem qualquer ritual. Torcendo o nariz diante de tal blasfêmia, apanhou a garrafa de leite semi-desnatado, tomou um gole no próprio gargalo e mastigou três bolachas água e sal.

Enquanto engolia sem muito empenho, instintivamente seus olhos foram atraídos para a garrafa do "Château Lafite Rothschild 2000" que ganhara no natal passado, e ocupava lugar de destaque na adega que instalara na cozinha. Seus instintos mais primitivos imploravam para saborear ao menos um gole daquela preciosidade curtida em barricas de carvalho francês, qualificada pelos especialistas como néctar dos deuses com notas de frutas vermelhas frescas. Mas, havia imaginado como acompanhamento um jantar a dois, luz de velas aromáticas, Marisa Monte cantando baixinho, salmão grelhado ao molho de maracujá, ladeado por uma salada imaculadamente verde, batatas cozidas e arroz branco. Quem sabe até ousaria fazer seu famoso musseline de alho-poró. Era verdade que tinha todos os ingredientes a mão. Faltava era a companhia masculina que se encaixasse perfeitamente neste cenário elaborado. Balançou a cabeça de forma a afastar os devaneios que estavam consumindo preciosos minutos de seu tempo, e retomou o foco.

Seguiu para o quarto, abriu a porta do armário, e, como sempre, seus olhos foram seduzidos pelo cabide bege forrado com seda persa. Ele segurava cuidadosamente o vestido de honra de seu guarda-roupa. Sempre perdia o fôlego quando olhava aquela peça amarela esvoaçante. Comprara o traje numa boutique famosa, em uma de suas viagens a trabalho. Perdera a conta dos locais que já havia imaginado incendiar com essa roupa. Mas, como de praxe, ainda não encontrara o ambiente perfeito para harmonizar com o figurino. Não iria colocar justo esse vestido numa festa qualquer. Amanhã é um novo dia, costumava dizer. Irritada com as interrupções mentais, pegou a calça jeans desbotada velha de guerra, uma camiseta básica branca e foi escolher o sapato. A caixa prateada Jimmy Choo reluzia no canto direito de seu closet. Ganhara como prêmio há três anos atrás, por destacar-se como a mais arrojada e promissora profissional da agência onde trabalhava há mais de uma década. Era o tipo de sapato que conversava diretamente com o ego feminino. Era capaz de transformar qualquer gata borralheira numa Carrie Bradshaw. Haveria de selecionar um evento digno para estrear essa arma da sedução. Quem sabe, pensou, no tão sonhado jantar a dois. Achou graça do pensamento e mecanicamente pegou o tênis branco encardido e confortável que clamava pela aposentaria. Foi atrás do brinco de madeira que comprou na feirinha hippie montada em frente a igreja, e que se revelara seu maior curinga. Antes, porém, deu uma olhada no conjunto delicado de berloque e brincos de ouro branco 18k e diamantes que ganhara de sua mãe em uma data especial qualquer. Sempre que os tocava, sentia-se envolta numa aura de proteção. Talvez por isso, considerava-os mais do que jóias: eram um amuleto. Até pensou em colocá-los, como aliás, sempre pensava, mas, para ir ao supermercado? Não tinha o menor cabimento, pensou, franzindo a testa. Passou para o cômodo seguinte e pegou a mochila marrom, não sem passar os olhos pela bolsa de couro Dior que adquirira por impulso no mês passado, depois de folhear uma revista de moda qualquer, enquanto aguardava sua consulta de rotina no dentista. Pior do que isto! Comprara a página inteira, que incluía uma echarpe de cashmere e seda e chapéu de palha. Anotou mentalmente que teria que dar o jeito de estrear amanhã a bolsa maravilhosa que lhe custara parte substancial do salário do mês, bem como os acessórios.

Titubeou antes de pegar a chave do carro. Passou a mão no telefone, discou os três primeiros números de um telefone mais que conhecido, mas desistiu bruscamente. Sua mãe teria que dar o braço a torcer desta vez. Já estavam nesta guerra silenciosa há quase quatro meses. Mas as palavras proferidas por sua genitora no calor da discussão ainda estavam quentes no seu coração. Até pensara em jogar a toalha e convidá-la para passear, mas, quer saber? Quem sabe amanhã eu esteja mais compreensiva, ponderou.

Passou a mão na mochila e saiu calmamente rumo ao supermercado. Ao passar pela beira-mar sentiu um impulso quase incontrolável de parar o carro e caminhar um pouco, sentindo a brisa e o calor morno do sol. Estava um dia lindo, com direito a céu azul, mar acarpetado e gaivotas se exibindo em rasantes magníficos. Era o típico dia que convidava ao deleite. Chegou a pisar no freio, mas desistiu. Amanhã, jurou, vou me dar essa caminhada de presente.
Estava tão envolvida com seus pensamentos e planos futuros, que não percebeu a agitação que se desenrolava do lado de fora do seu carro. Quando a caminhonete vermelha desgovernada invadiu sua pista e atingiu a porta do motorista, prensando seu automóvel contra o poste, não teve tempo de pensar. Ouviu seu próprio grito, sentiu os cacos de vidro ferirem sua pele, e tudo se fechou em profunda confusão. Viu sua vida se desenrolar em câmera lenta, como num filme amarelado e rasurado pelo tempo. Não sabe ao certo quanto tempo ficou cercada de metal por todos os lados. Na verdade, sequer tinha certeza de estar viva. Ouvia vozes, estalos, marteladas, serras elétricas a pleno vapor, sons que não faziam parte do seu cotidiano. De repente, abriram seu carro como se fosse uma lata de atum. E ela enfim saiu daquele inóspito túmulo de ferro ardiloso a que havia sido reduzido seu veículo.

Os policiais, paramédicos e curiosos a olhavam como olhariam para uma assombração. Não podia culpá-los.
A julgar pelo estado de seu carro, rebaixado a um amontoado de lata retorcida, era quase impossível acreditar que alguém poderia ter sobrevivido. Mas ela sobreviveu. Fisicamente intacta, fora parcos arranhões. Emocionalmente ainda estava presa nas ferragens, tentando entender o que acabara de acontecer. Alguém saiu da multidão que se aglomerara para acompanhar a cena fatídica e a abraçou de forma terna, sussurrando em seus ouvidos: "filha, é um milagre, você nasceu novamente". Ela estava confusa demais, anestesiada com o impacto dos acontecimentos, incapaz de responder a gentileza. Mas as palavras daquela estranha sem rosto ecoaram em sua mente e abriram portas em sua alma. Portas que há muito tempo estavam emperradas.
Resolveu como podia a burocracia com o seguro, guincho e outras faces pragmáticas do acidente. Ainda zonza, pegou um táxi e foi para casa.

Abriu a porta do apartamento vagarosamente, e adentrou seu lar como se fosse a primeira vez. Ligou o som da sala e foi direto para o quarto. Rompeu o lacre do kit de loções para banho "Love Spell"
da Victoria's Secret, que prometia ser uma profusa e deliciosa combinação da flor de cereja, muguet, maçã vermelha, pêssego da Georgia com toque de tamarindo. Enquanto Marisa Monte entoava "Preciso Me Encontrar", tomou um banho demorado, deixando a água reavivar cada fibra de seu ser. Enxugou-se delicadamente e deslizou o vestido amarelo no corpo. Calçou sua sandália Jimmy Choo e finalizou o visual com seu talismã. Foi para a cozinha, não sem antes fitar-se demoradamente na frente do espelho. Abriu a geladeira, rasgou o plástico de proteção das impecáveis cadeiras com estrutura de málaca e trançado de juta e sentou. Queria, ou melhor, precisava sentir a rusticidade do tecido roçando na sua pele. Despejou o Château na sua taça mais cara. Quando sentiu a explosão de sabores que o primeiro gole causou em sua boca, deixou que as lágrimas escorressem livremente pela sua face, dando um toque salgado às notas de madeira. Abriu a embalagem da delikatessen e aqueceu cada célula do seu corpo com o gosto exótico da torta de chocolate. Quando terminou de degustar o último pedaço, deslizou o dedo pelo prato, sentindo a textura areada da cobertura, e presenteou seus lábios com o restinho do sabor. Queria desfrutar na prática, cada gota de todos os prazeres que até então sempre estiveram ao alcance de suas mãos só na teoria.

Ainda embalada por aquele momento único de amor próprio, pegou o telefone e ousou discar todos os números. Sua mãe talvez não tenha compreendido o seu tom de voz, o seu pedido de perdão desengonçado ou mesmo as palavras que pareciam jorrar diretamente de seu coração. Palavras de amor que represara em seu íntimo desde a mais tenra idade e que, enfim, encontraram solo fértil no âmago daquela que lhe dera a vida. Choraram juntas, sem o menor pudor. Deixaram verter com toda a intensidade o sentimento que as unia, mas que esbarrava no orgulho forte de suas personalidades turronas. Fora o momento mais íntimo que desfrutaram ao longo de suas existências. O primeiro de muitos, pensou emocionada. Marcaram de jantar juntas. Desligou sentindo uma leveza que a fazia flutuar através de emoções até então desconhecidas. Olhou para o sol espetacular que ainda teimava em brilhar no horizonte e saiu.

Ninguém entendeu quando ela adentrou para caminhar na pista da beira-mar envolvida em brilho da cabeça aos pés e vestida com um glamour digno de festa VIP. Ela não se importava. Não agora. Nunca mais. Hoje era tudo que ela tinha. Afinal, o amanhã poderia se revelar um dia cheio de promessas irrealizadas.

E assim seguiu caminhando, a passos lentos mais firmes, sentindo o acariciar do vento na face e enchendo o ar daquela manhã ensolarada com seu perfume de maçã vermelha e pêssego. Estava tão satisfeita consigo que devolvia aos olhares reprovadores um sorriso cuja sinceridade ainda lhe era estranha.
Descobriu, enfim, que esse era o momento mais especial da sua vida. Passou a nutrir sincera afeição por si e, comovida, constatou que estava na melhor companhia que alguém poderia ter. E tudo isso porque sentiu o hálito do destino sussurrar no ouvido de sua alma. Sentiu na pele o poder do quase. Precisou quase morrer para começar a viver.

5

Explosão...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 27.2.09

Algumas palavras me arrebatam
Absorvo o néctar de cada sílaba de forma pausada
Alimentando meus vazios
Aquecendo meus invernos...
E quando juntas, me nutrem a ponto de saciar a alma
Penetram minhas defesas
Arregaçam meus pensamentos
Quebram a minha razão em mil pedaços
Abrem as comportas da loucura
Alcançam locais que não enxergo a olho nu
E se alojam nas minhas entranhas
No limite exato onde a decência e a insanidade correm parelhas...
E ali se aconchegam silenciosas
Germinando no escuro dos meus devaneios
Alimentadas pelo sangue latente da minha inspiração
Martelando o universo dos meus sonhos
Rasgando as paredes dos meus dogmas...
E na ânsia de extravasarem em toda a sua plenitude
Restam limitadas por seu próprio abismo
Não podem gerar prosa e verso
Tamanha a sua imensidão...
Resignadas, seguem o caminho alternativo da emoção
E se deixam escorrer lentamente pelos meus olhos
Cravando um rastro de explosão na minha face
E desvanecendo no ar de meu sentimento...

7

Nota de rodapé...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 25.2.09


Era uma vez duas histórias de vida correndo paralelas. Cada qual com sua própria trama, palavras sonhadoras intercalando angústias, vírgulas de emoção dividindo desertos, pontos de exclamação lardeando fantasias. Perdida nas entrelinhas jazia a incessante busca por outro autor, disposto a firmar parceria e colorir com seus momentos a rotina das páginas amareladas pelo tédio da solidão.

De repente elas se encontram. Seus temas guardam harmonia e similitude. Os olhares se cruzam, os sinais disparam, os pulsos aceleram descompassados. Espíritos que se reconhecem, juras eternas lançadas ao vento, lábios que se saciam, corpos que ardem uníssonos. Dançam ao som do enamoramento e no altar do sentimento prometem escrever juntos
uma única história de amor, serem fiéis à gramática do coração, na saúde da semântica e na doença da forma, na riqueza do vocabulário e na pobreza da interpretação, respeitando a fragilidade do início e evitando o desgaste do fim.

Brindam essa nova fase com a taça do comprometimento, e guardam cada qual na gaveta secreta de seu ser, o encarte celibatário até então editado. Selam essa intenção com um volume novo, encadernado com o frescor das promessas, recheado de folhas em branco clamando para serem preenchidas a dois, com enredos variados, fecundidade de detalhes, memórias coloridas, comemorações gravadas em nanquim, emolduradas por fotografias eternizando paisagens afetivas.

Os anos galopam impiedosos, alheios a fogosidade da intenção, comprometendo severamente com seu trote rude, a altivez da concordância. Sujeito e predicado não mais dividem a mesma oração, sequer conjugam o verbo no tempo certo. Os capítulos passam a ser escritos de forma desconexa, marcados pela hipérbole da exasperação e pontos de interrogação precariamente articulados. Os personagens se perdem no idiomatismo deficiente, trocando farpas veladas, até caírem na vala comum do evitamento. Dão vazão aos seus próprios desatinos dividindo a mesma obra, mas, em títulos desenvolvidos separadamente, cada qual com protagonista, ritmo e direção específicos. Os textos carregados de aventuras conjugadas são substituídos pelas linhas em branco dos versos não declamados, reticências dos poemas ditos sem excitação, infertilidade das narrativas desprovidas de comoção e saturadas de mágoa.

Pouco a pouco o hiato que separa cada parágrafo consome a maior parte da página e o romance segue agonizando por falta de métrica. A medida que a distância se agiganta e a realidade desponta cruel cobrando seu preço, o divórcio dos votos sagrados proferidos no berço da paixão se torna inevitável, encerrando a fábula através de um parco e sofrido epílogo, sem direito a bibliografia. Passado o luto pelo futuro projetado em expectativas que não encontraram solo fértil na literatura da existência, é hora de vasculhar com vontade os recônditos da alma em busca do livro pessoal outrora jogado num canto empoeirado do esquecimento. E cada qual retoma as rédeas de seu destino e reassume a autoria de sua própria crônica.

E um, que era a razão de existir da história do outro, deixa de ser o personagem principal nesta nova etapa, para virar, com sorte, uma mera nota de rodapé...

4

Amarras...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 24.2.09


Alguns hábitos são tão aconchegantes, que sequer percebemos o preço que nos cobram.
Ali estamos, estagnados, enebriados, sorvendo um pretenso conforto que nos impossibilita de prosseguir em busca de novas paisagens.
Algumas manias estão de tal maneira arraigadas em nossa personalidade, que acabam criando raízes.
Acostumados que estamos com sua presença, somos seduzidos pela falsa promessa de alívio que o conhecido sempre alardeia.
E nos alimentamos de um sentimento viciado, incapaz de se renovar, pois jaz adstrito aos próprios muros que nos servem de proteção.
E até crescemos na medida exata de nossos limites imaginários,
de forma absurdamente precária, tal qual uma árvore frondosa estará condenada a minguar dentro de um minúsculo vaso, sem nunca ter conhecido o gozo da liberdade e a carícia fecunda da mãe terra.

Alguns hábitos são tão aconchegantes, que sequer percebemos que estão nos matando aos poucos.
Nossos olhos se acostumaram com o cenário e tornaram-se incapazes de reconhecer pequenos milagres que despontam diariamente no horizonte.
Nossos ouvidos se habituaram com a melodia cadenciada habitual e seguem imunes as pequenas baladas que a natureza sussurra no silêncio da noite, no cair da chuva ou no reboar do trovão.
Nosso olfato está impregnado com o cheiro pérfido da rotina e inabilitado a aspirar o doce perfume das possibilidades que desabrocham vaidosamente ao primeiro raiar do dia.

Alguns hábitos são tão aconchegantes, que sequer percebemos que não mais nos pertencem.
Já não nos trazem o prazer de outrora, e há muito deixaram para trás sua função de muletas para tornarem-se apenas fardos, que, a medida que o tempo avança, se fazem cada vez mais pesados.
Nossos atos não passam de gestos automáticos, desprovidos de movimento e despidos de qualquer emoção maior.
Nesta hora de reconhecimento, em que olhamos nos olhos de nosso algoz, outrora salvador, a despedida se torna inevitável.
E cortamos as raízes, e seguimos zonzos, com as pernas bambas pelo desuso, o coração atrofiado retomando lentamente o pulsar, sem saber direito para onde seguir e o que fazer com tanta leveza... sentimos que, talvez, até possamos, quem sabe, enfim... voar!

2

Parabéns amiga...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 17.2.09


Já me declarei pessoa reservada, e, como tal, construo minhas amizades aos poucos. Prefiro a lentidão dos passos firmes, à rapidez dos tropeços. Alguns amigos em especial, considero como irmãos de coração. É uma afinidade que não comporta explicações... ela exige apenas vivência. Eles não participam fisicamente do meu cotidiano, mas a sua simples existência me supre. Juntos escrevemos muitas páginas do diário da minha existência, sem as quais eu restaria incompleta.

Uma dessas pessoas que me é mais que cara, me acompanha desde os idos de 1994, e o nome dela, Clara, é uma alusão a luminosidade que ela exala por todos os poros. Aliás, verdade seja dita, os olhos são realmente o espelho da alma, e os da minha amiga são de uma beleza e profundidade que dispensam comentários.
A Clara é uma mulher poderosa, que transforma os obstáculos em trampolim, linda de corpo e alma, esposa apaixonada, mãe dedicada, filha companheira, dona-de-casa que mistura os quitutes dos tempos pretéritos com a modernidade da era tecnológica, profissional sempre antenada, e, por incrível que pareça, ainda sobre tempo para ela ser amiga. E não é daquelas amizades que carrega a faixa, mas não sustenta o título: é uma pessoa que procura estar sempre presente, apesar da distância física que nos separa.

Fevereiro é o mês em que minha amiga-irmã celebra o dia de seu nascimento. Tempos atrás descobri o tal do scrapbook digital. Fiquei encantada. Na hora decidi estrear a brincadeira fazendo um cartão de aniversário para a Clarinha. Entretanto, apesar da bela intenção, o dia 08 chegou... e passou como num piscar de olhos. E eu, enrolada que estava com prazos e os afazeres rotineiros, além de não conseguir terminar o cartão, também deixei o dia passar batido. Assim que me toquei da falha imperdoável, resolvi que só iria falar com ela depois que terminasse o mimo. Mas, acabei sendo tragada pelos compromissos profissionais, que me impediram de fazer o básico do básico na minha vida. E o máximo que consegui criar é esta montagem que emoldura esta mensagem, que não chega nem aos pés do cartão que povoa minha imaginação fértil.

A correria do dia-a-dia tem exigido muito. Tenho que me desdobrar em mil para dar conta de todos os setores da minha vida. E, em face da escassez das horas, é justamente a busca pela perfeição que tem me levado a pecar... Deixar passar em brancas nuvens o aniversário de alguém vital na minha vida é uma falta que espero não repetir.
Afinal, neste corre-corre frenético, o que de mais precioso e raro posso oferecer àqueles que amo, é uma fatia do meu tempo.
Confesso, tenho uma predileção por essa data tão especial. Talvez, seja por puro egoísmo. A maioria das datas comemorativas são coletivas. Já o aniversário é personalizado, é um dia num vasto ano de 365, em que os holofotes são lançados sobre você. É a celebração do instante em que você venceu todas as barreiras naturais e disse ao mundo chorando: eu vim para brilhar! Enfim, é a comemoração do exato momento em que Deus presenteou o mundo com a sua presença.

Por isso mesmo amiga, apesar do seu coração bondoso ter relevado mais essa falta, fica aqui o registro do pedido de desculpas, e, claro, meu aprendizado. A partir de hoje vou dar vazão ao meu sentimento, seja através de um cartão perfeitamente emoldurado, seja através de um recado singelo no orkut, ou mesm
o um email sem formatação. Vou me preocupar menos com a forma e mais com o conteúdo. Porque, no fim das contas, seja qual for o formato escolhido, a mensagem é única amiga: sua amizade é uma benção essencial na minha vida. Apesar de não conversarmos tanto quanto gostaríamos, torço e rezo por você diariamente.
Onde quer que esteja Clarinha, sinta-se beijada através da ternura que liga duas almas atadas pelos laços da camaradagem... aperto sua mão através do tempo... abraço você longamente através das lembranças, e selo este encontro com o desejo sincero de que caminhe sempre de encontro a sua felicidade!
Porque você é merecedora de cada uma das suas vitórias...
Feliz existência, amiga!
Obrigada por você me incluir nela...

Obs: Apesar de eu amar o dia do meu aniversário por ser só meuzinho, bem, tenho que confessar que o meu caso é bem peculiar: acreditam que meu irmão inventou de nascer bem no meeeeeeeuuuuu dia? É, somos gêmeos com diferença de 8 anos... Mas, eu não o culpo... Deus pediu para o mano escolher um dia para nascer, daí ele me viu, e pensou: "uau, que pessoa linda, maravilhosa, perfeita e modeeesssssta... quero ser igual...", e tchum, nasceu no dia mais lindo do ano. Affff... chegou perto maninho, chegou perto.. rssss.

1

Divagando...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 16.2.09


Sempre fui uma pessoa reservada.
A minha vida, os meus momentos, as minhas lembranças, os meus segredos, são tesouros que guardo a sete chaves.
São essas riquezas peculiares que forjaram a minha personalidade, e guardam em si a minha essência mais pura.
Por isso, gosto de dividir meus devaneios, dores, alegrias, amores, no aconchego de uma convivência moldada a passos lentos, porém firmes. Quando essas recordações saem de minha boca, se misturam com a saliva da emoção e inundam o ar com trechos sagrados da minha existência... Quando saem de outros lábios, são destituídas de movimento, viram palavras estéreis, profanadas, desgarradas do contexto que as torna vital.
Sentimentos não nascem prontos e acabados, são edificados ao longo do tempo, com muita paciência, respeito e dedicação.
Não acredito em amores que ainda não passaram pelo crivo do cotidiano. Os amantes insistem em nadar eternamente na superficialidade da paixão. Não entendem que necessitam afogar a carne para renascer alma.
Não acredito em amizades de balada. Daquelas que dividem a conta, o copo, a carona, mas que não arriscam um olho no olho, por medo de se perder no outro. Conhecem de cor os vícios, mas ignoram os sonhos. Saboreiam juntos o petisco, mas se separam antes do prato principal.
Na construção dos meus relacionamentos, prefiro me prolongar no projeto da fundação e na escolha do cimento, do que me envolver precocemente com o brilho efêmero do acabamento.
Se é para morar no meu coração, pode ser numa choupana, desde que sólida e estruturada,
resistente às intempéries do humor, a aridez da distância, a roda-viva da rotina.
Lindos castelos de areia não mais me seduzem... eles cedem ao primeiro sinal de vento, e a imponência de sua beleza é substituída por um grande vazio.
No terreno do meu coração, há construções abrigando minha família, meus amigos, meu homem... algumas outras foram desocupadas, mas seus alicerces continuam intactos, e isso me basta... outras tantas não resistiram, e renderam-se a efemeridade de seu sustentáculo.
No terreno do meu coração eu planto flores, para que as borboletas possam se aproximar. Eu tiro as ervas-daninhas e as transformo em adubo. Eu cultivo hoje as sementes, para que amanhã os seus frutos possam servir de alimento.
Por isso mesmo, não importa o quanto as tempestades da vida fustiguem esse solo sacro, pois enquanto eu respirar, ele estará livre de todo mal, completamente protegido... pelo meu amor!


3

Vai com Deus...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 9.2.09

Estava euzinha na Livraria Catarinense, dando aquele "rolé" básico para ver as novidades, quando paro ao lado de duas amigas vasculhando avidamente a sessão de auto-ajuda (não, eu não estava bisbilhotando na conversa alheia, mas teria que enfiar um tampão no ouvido se não quisesse escutar).
A "Fulana" estava com a carinha visivelmente abalada, e, a cada segundo agradecia a "Sicrana" por sua companhia, compreensão, por ela ter perdido o almoço para confortá-la, blá, blá, blá. Dizia ainda, que sua fé estava sendo renovada, porque ela não parava mais de rezar. Acreditava piamente que Deus iria "consertar" a situação toda.
A "Sicrana", por sua vez, já devia ter lido tudo quanto é livro do gênero, porque começou engatando Roberto Shinyashiki, passou para Deepak Chopra, arranhou um pouco de Louise Hay, e lascou de chofre Yanla Vanzant (uau, não vi essa chegando, até me assustei). E quando achei que minha nova "ídola" tinha terminado, lá vem pinceladas de Paulo Coelho, pitadinhas de Richard Back, e o fechamento com chave de ouro: a recentíssima Elizabeth Gilbert (tá, tá, pra eu saber associar cada frase que ela falou com o autor, confesso, é porque também li toda a sessão, e o que não li já está na minha lista para adquirir ... lembrete: correr e comprar o livro da tal da Gilbert).

Pelo que pude entender no auge da minha intromissão indireta e silenciosa (a esta altura eu já estava com dor no pescoço) o marido da "Fulana", que vamos chamar de "Bofão" (você já vai entender "o porque"... olha, tô sem saco pra ver se é "o por que", "o por quê", "o porque" ou "o porquê"... se preocupa com o conteúdo e esquece a porcaria da gramática), além de ter caído fora do casamento de 25 anos, já estava todo serelepe desfilando com outra pela cidade (homens!!! &%@@*??^ será que nunca ouviram falar em luto??? pelo amor de Deus, era um casamento de 25 anos, não dava para pelo menos FINGIR tristeza por um período curto de tempo? unf!!!!).
Confesso, a cena pitoresca me chamou a atenção, e, manteiga derretida como sou, já estava toda emocionada (tá, tá, metida como sou só faltou ir lá abraçar a "Fulana" e ainda dar uma colher de chá com palavras da Colette Dowling).
Depois de muitas idas e vindas, e citações brilhantes (olha, até comecei a anotar pra dividir com vocês, mas a "Sicrana" falava muito rápido, eu ainda estava anotando o Richard Back e ela já estava no Paulo Coelho... como é que é? por que não decorei? pára né, ou eu prestava a atenção na conversa ou decorava as tiradas... me poupe!), a "Sicrana" não pode conter um gritinho de felicidade (tive que me segurar pra não pular junto):
- "Fulanaaaanaaaa, está aqui, achei.
Este livro vai mudar a sua vida, vai restabelecer sua fé nos homens, vai colar cada caquinho do seu coração estraçalhado, vai fazer ressurgir a mulher maravilhosa que está escondida embaixo de tanta desilusão. Faço questão de te presentear neste exato momento" (nota: por favor, se alguém disser que eu quase caí na tentativa de me espichar para ver o nome do bendito livro mágico, é pura mentira... caaaaaaapaaaaazzzzzz, nego até a morte! mas, cá entre nós... alguém aí tem uma dica de qual livro pode ser????).
Gente, eu juro, já estava a beira das lágrimas, completamente tocada por aquele momento único perdido no meio do cotidiano, quando a "Fulana" me solta essa pérola:
- "Não tem um livrinho mais fininho?".

(...) (essa pausa significa a travada que o meu cérebro deu no momento... sabe quando você escuta mas não acredita?)
(...) (calma, calma... ainda estou em choque)
(...) (tico ainda está caído, mas o teco dá leves sinais de recuperação)
(... Não... tem um... livrinho mais... hã... fi-ni-nho?) (ô teco, será que foi isso que ela falou mesmo? a gente ouviu errado, só pode ser...)
(fiiii-ni-nhooooo...) (vai tico reage caramba, tá começando a me irritar, sempre eu que carrego você nas costas)

Sabe aqueles dias em que você acorda imbuído de um sentimento divino, e quando as pessoas te jogam limão, você devolve uma limonada deliciosamente adocicada? É como se você transcendesse o momento, a pessoa, o ato em si, e olhasse o outro através das máscaras, enxergando a essência, as cicatrizes, os medos, as limitações, os sonhos e as desilusões que estão levando aquele ser em especial, a tomar uma determinada atitude. E quando isso ocorre, o usual julgamento é substituído por compaixão...
Pois é... pensamento lindo, ma-ra-vil-ho-so, mas, bu-huuuu, que peninha, hoje definitivamente não é um desses dias, meu ser está transbordando sentimento, mas pode ter certeza de que não tem nada de "divino" neles...
NÃO TEM UM LIVRINHO MAIS FININHO? (enfim, tico e teco caíram na real)
&%@@*??^

Incrível como o ser humano pula do céu ao inferno numa fração de segundo. As minhas "quase lágrimas emocionadas" viraram pura indignação
(juro, a minha vontade foi de pegar a dita cuja e dar um safanão... &%@@*??^... fazer ela engolir a coleção inteirinha do Augusto Cury... acrescentar um olho roxo e dar motivo para ela ficar com aquela cara de "cachorrinha pidonha"... &%@@*??^).

Caramba, depois as pessoas se questionam porque Deus as abandonou. Como é que Ele vai ajudar, se a criatura não se dá nem ao trabalho de se esforçar? Se até para melhorar quer pegar o caminho mais curto?
Rezar, por si só, não opera milagres. É preciso ação, resolução, andar, cair, correr, levantar... movimento!
Por acaso você vai se jogar de um avião e esperar que Deus aperte o botão que abre o pára-quedas?
Então você vai largar um carro zerinho com as janelas abertas, sem alarme, com a chave na ignição e o documento no banco, e ficar parado a distância rezando para que ninguém o roube? E Deus que se vire?
Deus, por certo, vai abençoar e reconhecer o esforço que você fez para comprar o carro. Mas, faça o favor de colocar alarme, trancar as portas e cuidar melhor do que é seu. Deus nunca falha... mas, fala sério, deixa de preguiça e faz pelo menos a SUA parte.

Afffffffffffffff... fica aqui o desabafo!
Vai com Deus "Fulana", e que o "Você-Sabe-Quem" te carregue.... afinal, ainda não editaram uma versão da bíblia resumida e fininha, né?
Quer saber? Quem estava realmente precisando de apoio e ajuda era o pobre coitado do "Bofão"... ainda bem que ele saiu dessa fria em tempo!

Obs.: Vocês não tem noção do quanto o meu anjo Ariel está tagarelando aqui do meu lado, dizendo que não devo ficar julgando os outros, blá... blá... blá... Depois que a gente dá uma "livrada" e cai pena de tudo que é lado, é porque somos pupilas malcriadas. E, olha lá Ariel... os meus livros não são nada fininhos... Ô linguarudo teimoso... Bom, não tem jeito. Se vocês encontrarem um anjo da guarda com a asinha meio capenga, não se preocupem: é o meu! Ele apenas sentiu o hálito da minha coleção de livros de auto-ajuda mais de perto...

0

Palavras...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 7.2.09

Gravei a frase, mas esqueci o nome do filme: as pessoas escrevem aquilo que não conseguem dizer.
Talvez seja uma verdade.
Perdi a conta das vezes em que coloquei minha dor em prosa e verso, rimando com cada aspecto do meu momento.
Outras tantas, derramei alegria em forma de verbo, e inseri esperança no preto e branco do cotidiano, através de adjetivos carregados de vida.
Cansei de colocar o impronunciável nas entrelinhas, de desnudar minha essência na pontuação cuidadosamente exagerada, de contar segredos escondidos no predicado.
Às vezes, você até tenta falar, mas sua boca tem vontade própria, não aceita o comando do seu coração, não transmite com fidelidade o recado, e acaba se perdendo... larga o discurso para fora dos lábios, mas aprisiona todo o sentimento.
Há ainda os momentos em que nem as lágrimas conseguem traduzir os lamentos da alma.
Também não são poucas as horas em que o som certeiro ultrapassa a barreira da garganta, vence a batalha contra os dentes cerrados e ousa sair... mas, é tarde demais, já não há ninguém para ouvi-lo.
Então só resta escrever...
Por que as palavras são fieis companheiras, estão sempre dispostas a preencher o vazio que o avançar do ponteiro do relógio impõe de tempos em tempos.
E mesmo quando são jogadas dentro de um texto desconexo,
podem até se render a fragilidade da sintaxe...
mas jamais perdem o seu real significado!

2

Saturno...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 6.2.09

Cena um: Você está trabalhando igual a uma condenada, mal tem tempo para escovar os dentes. O único exercício que tem feito é levantamento de barras... de chocolate. A celulite se mudou para as regiões baixas de mala e cuia e promete brigar na justiça ao menor sinal de despejo. Depilação virou supérflua frente a lista de coisas urgentes a fazer antes do final do mês. Entretanto, alheio ao campo de batalha que virou sua geladeira, seu namorado chega na quarta-feira do amasso, cheio de amor para dar. Começam as preliminares, e você tenta desesperada lembrar se está usando àquela calcinha que está furada bem na pata esquerda do bambi (é do bambi mesmo, era a única que estava disponível). Você procura em vão apagar todas as luzes do quarto, na tentativa de enganar o pobre do bofe (afinal, não é verdade que o que os olhos não vêem o coração não sente?). De repente, ele olha para você com aquele olhar apaixonado e diz: "tira logo a roupa... te quero nua!".
E você pensa enquanto agarra ele com toda força: "Meuuuuu Deusssss obrigada por esse príncipe encantado que está transformando minha vida num conto de fadas...".

Cena dois: Passado algum tempo desde o sufoco que, diga-se de passagem, rendeu vários pontos para seu namorado, você resolve dar um jeito na sua vida, e começa a organizar sua agenda de forma a guardar um tempinho para si. A celulite foi notificada e prepara a mudança; corridas no parque para firmar a gelatina... ops, quer dizer, os "músculos"; alimentação balanceada; sucos; chás; barra de cereal; enfim, a vida começa a surgir novamente no "corpito" até então bem surradinho. Quando você começa a se sentir no ponto, resolve jogar pesado. Inventa uma desculpa para o chefe, sai mais cedo do trabalho na quarta-feira do amasso, e começa uma maratona que espera termine em horas e horas do mais puro deleite. Você está economizando há uns meses sonhando com aquela lingerie ma-ra-vi-lho-sa que se não vai te deixar uma Gisele Bundchen, por certo não vai fazer feio. Quando saca o cartão de crédito para comprá-la, sente o primeiro orgasmo. E aí segue... Mão, pé, depilação, "blondor" para clarear os pelos, esfoliação, auto-bronzeador para deixar marquinha, creme, óleo, perfume, escolha da bijoux perfeita, sandália de salto alto espetacular, uma maquiagem leve mas eficiente, vinho na geladeira, morangos a espreita, velas aromáticas. Ufa! Tudo pronto! Os cinco minutos que separam você da chegada do amado parecem uma eternidade. Ao ouvir a campainha, você praticamente desfila até a porta, e ao fitá-lo, lança mão daquele olhar lânguido que já vinha treinando faz tempo. E então ele entra... yessss... uhuuuuuu. Dá uma olhada básica (sim, eu disse BÁSICA) aprovando o visual, toma o vinho no gargalo, enfia o morango goela abaixo, beija você quase quebrando seus dentes e alguns segundos depois diz com aquele olhar apaixonado: "tira logo a roupa... te quero nua!".
E você pensa enquanto tira a lingerie que te custou 3 dígitos (preciso dizer que junto com ela vai todo o tesão por água abaixo?): "Meuuuuu Deusssss eu sei que joguei pedra na cruz, mas puxa vida, será que mereço esse sapo que está coaxando na poça de lama que está virando a minha vidinha miserável?".

Depois do nocaute, você decide conversar sobre a relação.
Ele diz que não entende as mulheres, pois uma hora elas ficam todas excitadas com uma tirada, e em outro momento, a mesma frase as deixa deprimidas. Por certo elas são de Vênus.
Você, por outro lado, diz que ele é um insensível, e insensível, e insensível. Por certo eles são de Marte.
Fala sério, se eles são de Marte, elas são de Vênus e nós moramos na Terra, é praticamente a recriação da torre de Babel.
Deus, páaaaaara tudo que eu quero descer.
Quero ir é pra Saturno!

Está certo que as mulheres tendem a ser hormonais, mas não é justamente aí que reside a graça de tudo?
Já pensou que tédio você fazer todo dia a mesma coisa, ter as mesmíssimas sensações, as exatas reações.
Se você quer passar no vestibular, tem que ralar no estudo.
Se você quer ser promovido, tem que se dedicar, fazer algo a mais do que os outros que estão disputando a mesma vaga.
Se você quer passar num concurso, tem que estudar...
Tudo na vida que catapulta você para uma posição melhor, seja ela cultural, profissional, espiritual, requer dedicação, esforço, estudo, paciência.
Porque então achamos que não precisamos ter o mesmo empenho num relacionamento?
A maioria das pessoas, tanto homens quanto mulheres, acha que somente a conquista é que demanda "sacrifício"... depois, a relação navega sozinha, sem precisar de maiores manobras. Infelizmente, as estatísticas contrariam essa premissa preguiçosa. Nunca a separação esteve tão em voga...

Homens e mulheres são diferentes. Isso é um ponto pacífico.

Por sua vez, relacionamentos saudáveis são um porto seguro, um lugar de repouso, de reabastecimento de energia, de criação e conquistas, de prazer.
Vale ou não vale a pena o esforço?
A mulher deseja ser lida, entendida, nunca decifrada (isso já é impossível, nem ela mesma é capaz de tal façanha).
E, apesar de parecer algo quase impossível de se alcançar, na realidade, não exige um esforço sobrenatural.

Requer apenas o cuidado de olhar cada momento como se fosse o primeiro... porque na verdade, ele é. É único!
Não interessa se a sua ex-mulher gostava de abóbora e detestava ser chamada de "fofurinha", ou, se o seu ex-namorado odiava "chick movies" e gostava de cafuné na planta do pé. A pessoa que está com você hoje, odeia abóbora, ama de paixão quando você a chama de "fofurinha", só gosta de "chick movies" e sente cócegas nos pés. E sabe o que é pior? Você nem percebe, continua servindo abóbora como prato principal... quatro vezes por semana. Vai negar à sua parceira atual esses prazeres só porque a "ex" te traumatizou? Procura um terapeuta, um exorcista, faz alguma coisa criatura. Decida onde você está. Quem vive no presente reagindo ao passado, não sai do lugar.
Foque-se no momento presente... e só então aja!
Num dia muito inspirado, você enviou flores para o escritório dela, junto com uma lingerie e um bilhete descrevendo as façanhas que a noite prometia. Foi inesquecível. Só porque funcionou uma vez, você vai repetir a dose bem na semana em que a babá que era uma mãe para ela faleceu? Vai? Vai?
Estes tempos você incorporou o James Bond, jogou ela contra a parede e ela amou... aliás, verdade seja dita... ela foi ao delírio. Experimenta repetir a dose quando ela estiver na TPM. Eu aposto que você é quem vai delirar James Bond: pela pancada que irá sentir quando sua cabecinha de vento "encontrar" a parede...
De novo, qual a chave do sucesso?
Foque-se no momento presente... e só então aja!


Deu para entender, ou quer que eu desenhe?
(aprendi essa pérola com a minha cunhada Aninha... rsss).
As pessoas que passaram pela nossa vida deixaram marcas. Essa é uma verdade irrefutável, porque, afinal, os encontros nos modificam... alguns, nos curam, outros, deixam feridas e cicatrizes. Entretanto, a pessoa que hoje está ao nosso lado, nada tem a ver com isso. Cada novo relacionamento que inicia, é uma página em branco, que deve ser colorida da melhor forma possível.
Ontem é história, hoje é uma nova realidade, cheia de variantes diferentes, que estão a exigir uma nova postura.

E, cá entre nós... o homem que entende isso... bem, vai ser tratado como Rei no planeta Vênus. E, por certo, acabará desfrutando do paraíso ainda em vida... aqui mesmo, neste lindo planeta chamado Terra...

Dica de filme: Um filme nacional, delicioso e hilário, que retrata bem essa diferença entre os sexos, é o impagável "Se eu fosse você 2". Acreditem, se você gostou do primeiro, vai simplesmente amaaarrrrr o segundo. Imperdível!





Trailer do filme "Se Eu Fosse Você 2"

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Dúvida cruel...

Posted by Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sheila Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ on 5.2.09

A vida é realmente uma mãe rigorosa e paradoxal.
Apesar de ensinar, pacientemente, os seus filhos,
não hesita em testá-los avidamente.
Mal acabamos de aprender a lição, e lá vem a prova real.
Mal acabamos de degustar as primeiras mordidas, e somos obrigados a mandar tudo goela abaixo para não sufocarmos.
Mal acabamos de decorar o texto, e já somos obrigados a encená-lo sem TelePrompTer.
Mal acabamos de identificar as peças, e somos obrigados a montar o quebra-cabeças.
Mal acabamos de ensaiar os primeiros passos, e já somos obrigados a correr cem metros com obstáculos.
Aliás, não são poucas às vezes em que somos atropelados pelo instinto maternal do universo.
Só que, na maioria das vezes, nós filhos, imaturos que somos, não sabemos o que ela espera de nós... uma atitude ou paciência?
E quando temos vontade de chutar tudo para o alto, é porque não domamos nossa impaciência, ou porque chegamos no nosso limite máximo de tolerância?
E quando fazemos e refazemos a conta e não obtemos o resultado que nos apontam, é porque nossa conta está errada, ou porque o resultado alheio é que está?
Talvez essa dúvida revele que ainda não aprendemos a lição...
Ou, quem sabe...
Que desta vez, nossa mãe apressada, está exagerando na dose...


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