Amarras...

Ali estamos, estagnados, enebriados, sorvendo um pretenso conforto que nos impossibilita de prosseguir em busca de novas paisagens.
Algumas manias estão de tal maneira arraigadas em nossa personalidade, que acabam criando raízes.
Acostumados que estamos com sua presença, somos seduzidos pela falsa promessa de alívio que o conhecido sempre alardeia.
E nos alimentamos de um sentimento viciado, incapaz de se renovar, pois jaz adstrito aos próprios muros que nos servem de proteção.
E até crescemos na medida exata de nossos limites imaginários, de forma absurdamente precária, tal qual uma árvore frondosa estará condenada a minguar dentro de um minúsculo vaso, sem nunca ter conhecido o gozo da liberdade e a carícia fecunda da mãe terra.
Alguns hábitos são tão aconchegantes, que sequer percebemos que estão nos matando aos poucos.
Nossos olhos se acostumaram com o cenário e tornaram-se incapazes de reconhecer pequenos milagres que despontam diariamente no horizonte.
Nossos ouvidos se habituaram com a melodia cadenciada habitual e seguem imunes as pequenas baladas que a natureza sussurra no silêncio da noite, no cair da chuva ou no reboar do trovão.
Nosso olfato está impregnado com o cheiro pérfido da rotina e inabilitado a aspirar o doce perfume das possibilidades que desabrocham vaidosamente ao primeiro raiar do dia.
Alguns hábitos são tão aconchegantes, que sequer percebemos que não mais nos pertencem.
Já não nos trazem o prazer de outrora, e há muito deixaram para trás sua função de muletas para tornarem-se apenas fardos, que, a medida que o tempo avança, se fazem cada vez mais pesados.
Nossos atos não passam de gestos automáticos, desprovidos de movimento e despidos de qualquer emoção maior.
Nesta hora de reconhecimento, em que olhamos nos olhos de nosso algoz, outrora salvador, a despedida se torna inevitável.
E cortamos as raízes, e seguimos zonzos, com as pernas bambas pelo desuso, o coração atrofiado retomando lentamente o pulsar, sem saber direito para onde seguir e o que fazer com tanta leveza... sentimos que, talvez, até possamos, quem sabe, enfim... voar!